Por Sérgio A. P. Esteves
Planeta Sustentável - 29/09/2008
Sustentabilidade é um termo que tem se mostrado muito presente no repertório cultural contemporâneo. Flexível, com boa elasticidade no plano da linguagem, ele tanto tem servido para enriquecer a conversa casual como para impressionar interlocutores e valorizar a imagem de pessoas e organizações. Mas haverá aí, nessa noção cotidiana de sustentabilidade, algo mais do que apenas linguagem com boa capacidade de modelagem e adaptação? Haverá substância suficiente, coragem e determinação suficientes, capazes de induzir inovações e propor transformações estruturais a longo prazo no modus operandi do modernismo, erradicando iniqüidades e assimetrias que continuamente nos ameaçam? Haverá espaço para florescer a utopia de uma sociedade mais consciente de suas possibilidades e de seus limites?
[img1]Como sociedade, não parecemos estar de acordo com relação ao quanto temos avançado em direção a realidades econômicas, sociais, ambientais, culturais e psíquicas estruturalmente melhores. De fato, os argumentos que postulam atenção para o aumento populacional, a produção de alimentos, o esgotamento de recursos naturais, as acentuadas concentrações de renda, as profundas desigualdades sociais, os danos psíquicos e limitações ao desenvolvimento humano decorrentes da dominação, a biodiversidade, as doenças endêmicas e os riscos amplos da preservação a qualquer custo de interesses econômicos sequer conseguem, ainda, “conversar” entre si, que dirá propor um diálogo na esfera pública. Na ausência de espaço político para discutir pressupostos, conceitos e modelos que condicionam a vida em sociedade, temos nos contentado com incontáveis iniciativas de mobilização social e renovadas campanhas por causas pontuais; temos pego carona em projetos (patrocinado) que têm boa visibilidade junto à opinião pública e têm a propriedade de produzir admiração junto a diversos públicos; temos feito adesões a iniciativas globais e locais de diversas naturezas que, no entanto, se perdem em nosso cotidiano de curto prazo; temos nos satisfeito com o jornalismo-documental e o jornalismo-denúncia, com filantropias de vários formatos e com mecanismos de participação popular e organizacional dentro dos cercadinhos do status quo. Temos nos restringido a melhorias formais, deixando intocadas questões que nos fariam enfrentar as causas para diversas aflições contemporâneas. Comemos pelas bordas, mas permanecemos nelas. Fica então a pergunta de se, mais recentemente, o discurso sobre sustentabilidade poderia nos induzir, induzir pessoas, grupos e organizações a diálogos que viabilizem a introdução de mudanças relevantes em pressupostos, abordagens e práticas que constituem, hoje, o sentido da vida em sociedade. Em outras palavras, a proposta de sustentabilidade conseguirá considerar, como sugere DE GAULEJAC (Gestão como Doença Social, Idéias & Letras, 2007), “as derivações de uma sociedade na qual as desigualdades aumentam, o meio ambiente se degrada, o debate político se torna insignificante e o desencantamento chega a seu ponto máximo”?
De fato, não parecemos estar avançando para patamares sociais estruturalmente melhores mesmo articulando com mais propriedade o discurso sobre sustentabilidade e aumentando a quantidade de projetos e ações dirigidos aos diversos segmentos da sociedade. Estamos longe de conjugar consumo, equidade social e limites físicos do planeta, por exemplo; longe de avaliar com margens aceitáveis de segurança os impactos econômicos decorrentes das mudanças climáticas e de assumir que será necessário sacrificar interesses (e não só os interesses dos outros) para sair da enrascada em que nos metemos; estamos longe de conjugar melhor a lógica social com a lógica dos mercados – sobretudo a lógica do mercado financeiro, e longe de provar que a tecnologia nos salvará ao apagar das luzes. Estamos longe de prescindir de regulamentações. Talvez porque tudo o que estamos fazendo seja apenas mais do mesmo, como se estivéssemos rodando em círculos. Em outras palavras, temos evoluído em inúmeras frentes com bons retornos de imagem e bônus de consciência, mas a África precisa continuar existindo. As recentes discussões sobre desenvolvimento na China e na Índia, assim como os atuais engarrafamentos magistrais em São Paulo, mostram bem como o mundo não está pensado para todos e tende ao colapso com a inclusão. Podemos optar em restringir o acesso, como historicamente sempre fizemos, ou de repensar o modelo a partir do pressuposto da equidade entre os povos. O que faremos desta vez, que opção tomaremos com a proposta de sustentabilidade que bate agora, renovada, à nossa porta?
Num plano bem mais cotidiano, diante da “publicidade colorida e por vezes esfuziante” das organizações contemporâneas declaradamente envolvidas com sustentabilidade, permanecem algumas questões parcialmente sem resposta: as relacionadas à legitimidade do que estão fazendo, dada a natureza e os contornos estabelecidos por suas crenças, suas competências e por seu mandato social (não são poucos os que pensam que o mundo deveria emular uma grande empresa); as que questionam o quanto essas ações, por seu caráter assistencialista e naturalmente continuista impedem, ou adiam, transformações sociais historicamente necessárias; as que propõem uma reflexão consistente sobre o quanto as ações de diferentes organizações supostamente comprometidas com o bem público desarticulam a ação de líderes comunitários naturais, esvaziando o seu poder de mobilização e empurrando-os para a política partidária e suas limitações. No fim das contas, essas e outras questões se propõem a avaliar se e como estamos avançando em direção a uma sociedade mais sintonizada com a qualidade de vida não do indivíduo isolado, entregue à solidão da liberdade moderna, neoliberal, mas do coletivo humano.Haverá possibilidade de se ainda resgatar essa perspectiva, depois de toda essa festa anunciada do neoliberalismo a que temos comparecido com convites pessoais e intransferíveis? Conseguiremos ainda, após tantas seduções do mercado e tantas imposições dos símbolos modernos, resgatar o sentido de coletivo e construir novos significados para a ação humana? Será possível alguma interferência no curso apontado por Bauman de que cada vez mais se ”espera que [o trabalho] seja satisfatório por si mesmo e em si mesmo, e não mais medido pelos efeitos genuínos ou possíveis que traz a nossos semelhantes na humanidade ou ao poder da nação e do pais, e menos ainda à bem aventurança das futuras gerações”? [Modernidade Liquida, Zygmunt Bauman, 2001, Zahar].
Importante, penso, afirmar que há novos significados, novos horizontes e novas possibilidades para além da distração nossa de cada dia de compor visuais, seguir rituais, alcançar metas, concluir tarefas repetitivas, aparentar engajamento, fazer carreira, constituir poupança, agradar os chefes, estudar em uma boa escola, escrever um livro, plantar uma árvore, fazer caridade, separar o lixo, ter um filho, deixar de fumar, ir ao culto ou à missa aos domingos, falar articuladamente sobre sustentabilidade, respeitar os mais velhos e se aposentar com uma boa história de vida para contar. Importante afirmar isso quando se observa que os investimentos do país em infra-estrutura, por exemplo, não apenas não têm se traduzido em aumento de felicidade como parecem reduzir a qualidade da vida em sociedade a uma função da produção e do consumo, demonstrando as limitações da racionalidade disponível para apreciar a valorização da vida. Importante afirmar isso quando assistimos ciclicamente à rendição de sociedades inteiras aos humores dos mercados financeiros internacionais.
A sustentabilidade nos é revelada diariamente por meio de artigos, editoriais, matérias de capa, reportagens, eventos, denúncias do ministério público, outdoors, palestras, passeios no parque, conversas casuais, aulas, discursos, programas de entrevistas, espetáculos beneficentes e inúmeros outros artefatos publicitários. Ela nos chega por todos os meios, sempre como linguagem acabada, muito pouco no formato de assimetrias qualificadas, que exigem entendimento, mobilização e enfrentamento, ou de significados, que exigem avaliação e posicionamento político; nos chega em fragmentos de falas que vamos superpondo, como substratos de um sambaqui, e que produzem um sentimento impreciso de avanço e um certo formigamento intelectual: parecemos saber o que significa sustentabilidade, nos sentimos esperançosos que estamos progredindo como sociedade e isso parece bastar. Embora a angústia da dúvida moderna, sempre mal identificada pelo cidadão, de se estamos agindo de forma conseqüente, como exigem as situações no entorno, perdure insuportavelmente.
Exatamente por conta da sua atualidade e da aparente suficiência de seu discurso, a noção de sustentabilidade logra conviver em certa harmonia com acentuadas contradições de fundo. A desconexão entre discurso e práxis, intencional em diversas ocasiões, permite que, no fim das contas, os resultados observáveis sejam pouco mais do que um punhado de “boas práticas” e de realizações alardeadas pelos pragmáticos que, entretanto, 1) reduzem a realidade ao conteúdo sem profundidade do discurso de celebração e 2) adiam as transformações estruturais necessárias para influenciar a qualidade de vida de enormes populações do planeta. A desconexão é tão recorrente que, até como forma de expor as nossas próprias contradições, não há como evitar a pergunta: a serviço de que, afinal, temos colocado a idéia de sustentabilidade? Da continuidade? Será a sustentabilidade apenas o anel moderno que convém negociar antes que percamos os antigos dedos, já perdidos por antecipação?
Parece bastar a uma parcela significativa de formadores de opinião, por exemplo, a neutralização do carbono ou os investimentos em educação de jovens de segmentos sociais em situação de exclusão, como se a reinvenção do cotidiano - com uma redução drástica das emissões e a substituição da matriz energética, assim como o acesso ao trabalho em condições de equivalência, não fizesse parte da agenda. Parece bastar ser benchmark em consumo de água, como se considerações a respeito do lençol freático local não fizessem parte da responsabilidade das instituições: parecem bastar ações contra o desmatamento na Amazônia e contra o trabalho infantil como se as profundas desigualdades sociais e os interesses econômicos tardios não fizessem parte do debate.
O dilema que se coloca no enfrentamento das questões de sustentabilidade não é de natureza conceitual, mas metodológica e, nesse sentido, política. As soluções legitimadas para as questões que afligem a sociedade contemporânea e comprometem a qualidade de vida das atuais e futuras gerações são complexas e requerem bem mais do que o good will de diferentes atores sociais. Requerem formulação conjunta de diagnósticos, processos e resultados futuros; requerem complementaridade e, sobretudo, requerem que se realizem objetivos pontuais realizando, simultaneamente, objetivos coletivos. Finalmente, requerem organizações que se proponham a fazer parte desse esforço e se preocupem menos em obter retornos de imagem por iniciativas isoladas de caráter – sendo benevolente? - benevolente! Requerem, em nós e em nossas organizações, o espaço da utopia, tão minguado nestes tempos competitivos.
Vivemos em um ambiente social contemporâneo que supervaloriza as propostas de Schumpeter, considerado por muitos como o teórico por excelência do empreendedorismo, sem criar, porém, salvaguardas para as suas dramaticidades e, naturalmente, externalidades. Temos, assim, uma espécie de sustentabilidade de morro abaixo, capitaneada por uma nova elite aquartelada em diversas instituições e medida em iniciativas e realizações físicas pontuais, porém descontextualizadas de um sentido mais amplo de coletivo e, portanto, de legitimidade fraca; temos uma sustentabilidade que ganha corpo embalada pela oferta de pragmatismos na comunicação de massa, mas que se mostra pífia quando se trata das questões de fundo relacionadas à qualidade de vida e à equidade entre os povos; temos um avanço da transparência em torno de praticas organizacionais mas não sabemos lidar com o desinteresse daqueles que, supostamente, seriam dela beneficiários.
Conseguirão, então, os diferentes atores, [conseguiremos nós], nessa modernidade ambivalente, aceitar uma responsabilidade social traduzida por um compromisso com a qualidade de vida e a humanidade? Pelo respeito à vida? Conseguiremos contextualizar as consequências da maximização do consumo e das expectativas forjadas na individualidade, evoluindo para concepções inovadoras de participação social na busca de retornos capazes de reduzir progressivamente as desigualdades? Ou nos manteremos fiéis a processos privados, continuando a servir às estruturas de poder que ajudamos a perpetuar, menos no discurso do que na prática?
De fato, apenas a noção da sustentabilidade por si só não poderá nos tirar das encrencas econômicas, sociais, ambientais, tecnológicas, culturais e psíquicas em que nos metemos enquanto entretidos em competir e acumular. Ela será sempre só a noção de sustentabilidade, dentre várias noções capazes de produzir um certo efeito cênico com o poder relativo de amenizar as nossas angústias em relação às inequidades que promovemos e com que cooptamos, posto que convivemos. Só nós, mudando o padrão de ação no mundo, conseguiremos reverter as ameaças que hoje nos afligem. Precisamos criar coragem e aproveitar a reflexão proposta pela noção de sustentabilidade, construindo o espaço da utopia, hoje mais do que necessário, em nós, em nossas organizações, em nosso país, no mundo. Isso parece ser tão possível quanto foi possível chegar a este estado do mundo contemporâneo, com justificativas e argumentos, convenhamos, bem mais frágeis.
Por Sérgio A. P. Esteves
Planeta Sustentável - 29/09/2008
Sustentabilidade é um termo que tem se mostrado muito presente no repertório cultural contemporâneo. Flexível, com boa elasticidade no plano da linguagem, ele tanto tem servido para enriquecer a conversa casual como para impressionar interlocutores e valorizar a imagem de pessoas e organizações. Mas haverá aí, nessa noção cotidiana de sustentabilidade, algo mais do que apenas linguagem com boa capacidade de modelagem e adaptação? Haverá substância suficiente, coragem e determinação suficientes, capazes de induzir inovações e propor transformações estruturais a longo prazo no modus operandi do modernismo, erradicando iniqüidades e assimetrias que continuamente nos ameaçam? Haverá espaço para florescer a utopia de uma sociedade mais consciente de suas possibilidades e de seus limites?
[img1]Como sociedade, não parecemos estar de acordo com relação ao quanto temos avançado em direção a realidades econômicas, sociais, ambientais, culturais e psíquicas estruturalmente melhores. De fato, os argumentos que postulam atenção para o aumento populacional, a produção de alimentos, o esgotamento de recursos naturais, as acentuadas concentrações de renda, as profundas desigualdades sociais, os danos psíquicos e limitações ao desenvolvimento humano decorrentes da dominação, a biodiversidade, as doenças endêmicas e os riscos amplos da preservação a qualquer custo de interesses econômicos sequer conseguem, ainda, “conversar” entre si, que dirá propor um diálogo na esfera pública. Na ausência de espaço político para discutir pressupostos, conceitos e modelos que condicionam a vida em sociedade, temos nos contentado com incontáveis iniciativas de mobilização social e renovadas campanhas por causas pontuais; temos pego carona em projetos (patrocinado) que têm boa visibilidade junto à opinião pública e têm a propriedade de produzir admiração junto a diversos públicos; temos feito adesões a iniciativas globais e locais de diversas naturezas que, no entanto, se perdem em nosso cotidiano de curto prazo; temos nos satisfeito com o jornalismo-documental e o jornalismo-denúncia, com filantropias de vários formatos e com mecanismos de participação popular e organizacional dentro dos cercadinhos do status quo. Temos nos restringido a melhorias formais, deixando intocadas questões que nos fariam enfrentar as causas para diversas aflições contemporâneas. Comemos pelas bordas, mas permanecemos nelas. Fica então a pergunta de se, mais recentemente, o discurso sobre sustentabilidade poderia nos induzir, induzir pessoas, grupos e organizações a diálogos que viabilizem a introdução de mudanças relevantes em pressupostos, abordagens e práticas que constituem, hoje, o sentido da vida em sociedade. Em outras palavras, a proposta de sustentabilidade conseguirá considerar, como sugere DE GAULEJAC (Gestão como Doença Social, Idéias & Letras, 2007), “as derivações de uma sociedade na qual as desigualdades aumentam, o meio ambiente se degrada, o debate político se torna insignificante e o desencantamento chega a seu ponto máximo”?
De fato, não parecemos estar avançando para patamares sociais estruturalmente melhores mesmo articulando com mais propriedade o discurso sobre sustentabilidade e aumentando a quantidade de projetos e ações dirigidos aos diversos segmentos da sociedade. Estamos longe de conjugar consumo, equidade social e limites físicos do planeta, por exemplo; longe de avaliar com margens aceitáveis de segurança os impactos econômicos decorrentes das mudanças climáticas e de assumir que será necessário sacrificar interesses (e não só os interesses dos outros) para sair da enrascada em que nos metemos; estamos longe de conjugar melhor a lógica social com a lógica dos mercados – sobretudo a lógica do mercado financeiro, e longe de provar que a tecnologia nos salvará ao apagar das luzes. Estamos longe de prescindir de regulamentações. Talvez porque tudo o que estamos fazendo seja apenas mais do mesmo, como se estivéssemos rodando em círculos. Em outras palavras, temos evoluído em inúmeras frentes com bons retornos de imagem e bônus de consciência, mas a África precisa continuar existindo. As recentes discussões sobre desenvolvimento na China e na Índia, assim como os atuais engarrafamentos magistrais em São Paulo, mostram bem como o mundo não está pensado para todos e tende ao colapso com a inclusão. Podemos optar em restringir o acesso, como historicamente sempre fizemos, ou de repensar o modelo a partir do pressuposto da equidade entre os povos. O que faremos desta vez, que opção tomaremos com a proposta de sustentabilidade que bate agora, renovada, à nossa porta?
Num plano bem mais cotidiano, diante da “publicidade colorida e por vezes esfuziante” das organizações contemporâneas declaradamente envolvidas com sustentabilidade, permanecem algumas questões parcialmente sem resposta: as relacionadas à legitimidade do que estão fazendo, dada a natureza e os contornos estabelecidos por suas crenças, suas competências e por seu mandato social (não são poucos os que pensam que o mundo deveria emular uma grande empresa); as que questionam o quanto essas ações, por seu caráter assistencialista e naturalmente continuista impedem, ou adiam, transformações sociais historicamente necessárias; as que propõem uma reflexão consistente sobre o quanto as ações de diferentes organizações supostamente comprometidas com o bem público desarticulam a ação de líderes comunitários naturais, esvaziando o seu poder de mobilização e empurrando-os para a política partidária e suas limitações. No fim das contas, essas e outras questões se propõem a avaliar se e como estamos avançando em direção a uma sociedade mais sintonizada com a qualidade de vida não do indivíduo isolado, entregue à solidão da liberdade moderna, neoliberal, mas do coletivo humano.Haverá possibilidade de se ainda resgatar essa perspectiva, depois de toda essa festa anunciada do neoliberalismo a que temos comparecido com convites pessoais e intransferíveis? Conseguiremos ainda, após tantas seduções do mercado e tantas imposições dos símbolos modernos, resgatar o sentido de coletivo e construir novos significados para a ação humana? Será possível alguma interferência no curso apontado por Bauman de que cada vez mais se ”espera que [o trabalho] seja satisfatório por si mesmo e em si mesmo, e não mais medido pelos efeitos genuínos ou possíveis que traz a nossos semelhantes na humanidade ou ao poder da nação e do pais, e menos ainda à bem aventurança das futuras gerações”? [Modernidade Liquida, Zygmunt Bauman, 2001, Zahar].
Importante, penso, afirmar que há novos significados, novos horizontes e novas possibilidades para além da distração nossa de cada dia de compor visuais, seguir rituais, alcançar metas, concluir tarefas repetitivas, aparentar engajamento, fazer carreira, constituir poupança, agradar os chefes, estudar em uma boa escola, escrever um livro, plantar uma árvore, fazer caridade, separar o lixo, ter um filho, deixar de fumar, ir ao culto ou à missa aos domingos, falar articuladamente sobre sustentabilidade, respeitar os mais velhos e se aposentar com uma boa história de vida para contar. Importante afirmar isso quando se observa que os investimentos do país em infra-estrutura, por exemplo, não apenas não têm se traduzido em aumento de felicidade como parecem reduzir a qualidade da vida em sociedade a uma função da produção e do consumo, demonstrando as limitações da racionalidade disponível para apreciar a valorização da vida. Importante afirmar isso quando assistimos ciclicamente à rendição de sociedades inteiras aos humores dos mercados financeiros internacionais.
A sustentabilidade nos é revelada diariamente por meio de artigos, editoriais, matérias de capa, reportagens, eventos, denúncias do ministério público, outdoors, palestras, passeios no parque, conversas casuais, aulas, discursos, programas de entrevistas, espetáculos beneficentes e inúmeros outros artefatos publicitários. Ela nos chega por todos os meios, sempre como linguagem acabada, muito pouco no formato de assimetrias qualificadas, que exigem entendimento, mobilização e enfrentamento, ou de significados, que exigem avaliação e posicionamento político; nos chega em fragmentos de falas que vamos superpondo, como substratos de um sambaqui, e que produzem um sentimento impreciso de avanço e um certo formigamento intelectual: parecemos saber o que significa sustentabilidade, nos sentimos esperançosos que estamos progredindo como sociedade e isso parece bastar. Embora a angústia da dúvida moderna, sempre mal identificada pelo cidadão, de se estamos agindo de forma conseqüente, como exigem as situações no entorno, perdure insuportavelmente.
Exatamente por conta da sua atualidade e da aparente suficiência de seu discurso, a noção de sustentabilidade logra conviver em certa harmonia com acentuadas contradições de fundo. A desconexão entre discurso e práxis, intencional em diversas ocasiões, permite que, no fim das contas, os resultados observáveis sejam pouco mais do que um punhado de “boas práticas” e de realizações alardeadas pelos pragmáticos que, entretanto, 1) reduzem a realidade ao conteúdo sem profundidade do discurso de celebração e 2) adiam as transformações estruturais necessárias para influenciar a qualidade de vida de enormes populações do planeta. A desconexão é tão recorrente que, até como forma de expor as nossas próprias contradições, não há como evitar a pergunta: a serviço de que, afinal, temos colocado a idéia de sustentabilidade? Da continuidade? Será a sustentabilidade apenas o anel moderno que convém negociar antes que percamos os antigos dedos, já perdidos por antecipação?
Parece bastar a uma parcela significativa de formadores de opinião, por exemplo, a neutralização do carbono ou os investimentos em educação de jovens de segmentos sociais em situação de exclusão, como se a reinvenção do cotidiano - com uma redução drástica das emissões e a substituição da matriz energética, assim como o acesso ao trabalho em condições de equivalência, não fizesse parte da agenda. Parece bastar ser benchmark em consumo de água, como se considerações a respeito do lençol freático local não fizessem parte da responsabilidade das instituições: parecem bastar ações contra o desmatamento na Amazônia e contra o trabalho infantil como se as profundas desigualdades sociais e os interesses econômicos tardios não fizessem parte do debate.
O dilema que se coloca no enfrentamento das questões de sustentabilidade não é de natureza conceitual, mas metodológica e, nesse sentido, política. As soluções legitimadas para as questões que afligem a sociedade contemporânea e comprometem a qualidade de vida das atuais e futuras gerações são complexas e requerem bem mais do que o good will de diferentes atores sociais. Requerem formulação conjunta de diagnósticos, processos e resultados futuros; requerem complementaridade e, sobretudo, requerem que se realizem objetivos pontuais realizando, simultaneamente, objetivos coletivos. Finalmente, requerem organizações que se proponham a fazer parte desse esforço e se preocupem menos em obter retornos de imagem por iniciativas isoladas de caráter – sendo benevolente? - benevolente! Requerem, em nós e em nossas organizações, o espaço da utopia, tão minguado nestes tempos competitivos.
Vivemos em um ambiente social contemporâneo que supervaloriza as propostas de Schumpeter, considerado por muitos como o teórico por excelência do empreendedorismo, sem criar, porém, salvaguardas para as suas dramaticidades e, naturalmente, externalidades. Temos, assim, uma espécie de sustentabilidade de morro abaixo, capitaneada por uma nova elite aquartelada em diversas instituições e medida em iniciativas e realizações físicas pontuais, porém descontextualizadas de um sentido mais amplo de coletivo e, portanto, de legitimidade fraca; temos uma sustentabilidade que ganha corpo embalada pela oferta de pragmatismos na comunicação de massa, mas que se mostra pífia quando se trata das questões de fundo relacionadas à qualidade de vida e à equidade entre os povos; temos um avanço da transparência em torno de praticas organizacionais mas não sabemos lidar com o desinteresse daqueles que, supostamente, seriam dela beneficiários.
Conseguirão, então, os diferentes atores, [conseguiremos nós], nessa modernidade ambivalente, aceitar uma responsabilidade social traduzida por um compromisso com a qualidade de vida e a humanidade? Pelo respeito à vida? Conseguiremos contextualizar as consequências da maximização do consumo e das expectativas forjadas na individualidade, evoluindo para concepções inovadoras de participação social na busca de retornos capazes de reduzir progressivamente as desigualdades? Ou nos manteremos fiéis a processos privados, continuando a servir às estruturas de poder que ajudamos a perpetuar, menos no discurso do que na prática?
De fato, apenas a noção da sustentabilidade por si só não poderá nos tirar das encrencas econômicas, sociais, ambientais, tecnológicas, culturais e psíquicas em que nos metemos enquanto entretidos em competir e acumular. Ela será sempre só a noção de sustentabilidade, dentre várias noções capazes de produzir um certo efeito cênico com o poder relativo de amenizar as nossas angústias em relação às inequidades que promovemos e com que cooptamos, posto que convivemos. Só nós, mudando o padrão de ação no mundo, conseguiremos reverter as ameaças que hoje nos afligem. Precisamos criar coragem e aproveitar a reflexão proposta pela noção de sustentabilidade, construindo o espaço da utopia, hoje mais do que necessário, em nós, em nossas organizações, em nosso país, no mundo. Isso parece ser tão possível quanto foi possível chegar a este estado do mundo contemporâneo, com justificativas e argumentos, convenhamos, bem mais frágeis.























