
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 04/09/2008
[RTC0] O BRASIL QUE QUEREMOS SER [/RTC0]
A revista Veja completou 40 anos de existência e comemorou a data com o seminário “O Brasil que queremos ser”, no dia 2 de setembro. O evento contou com a presença de cerca de 450 nomes relevantes no cenário nacional, não só para discutir a situação do país em relação a seis temas – Educação; Meio Ambiente; Economia; Imprensa; Democracia, Raça e Pobreza e Megacidades – como para elaborar propostas de melhorias nesses setores para as próximas quatro décadas. As 40 idéias geradas a partir do seminário vão para as bancas na edição de Veja do dia 10 de setembro.
Confira os melhores momentos no site do evento e, abaixo, os principais pontos levantados em cada um dos painéis.
[RTC1] EDUCAÇÃO [/RTC1]
O primeiro painel do dia, mediado pelo economista e colunista de Veja, Gustavo Ioschpe, foi composto pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, pela secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães, e pelo economista José Alexandre Scheinkman.
Para Scheinkman, os brasileiros começaram muito tardiamente a dar a devida importância à educação de nossas crianças. No entanto, Haddad diz que esse atraso está sendo superado na medida em que, atualmente, cada escola pública brasileira possui metas e diretrizes de qualidade específicas que pretendem levar o Brasil, até 2022, a alcançar um nível de desenvolvimento educacional equivalente ao dos países desenvolvidos.
O ministro ainda reconheceu que o sistema educacional do país não é necessariamente de má qualidade, mas desigual. Aliás, foi consenso entre os integrantes do painel que é preciso haver mais investimento dos governos na formação de docentes – até então relegada às instituições particulares de qualidade duvidosa – e dar condições para que os professores permaneçam trabalhando na rede pública.
Maria Helena explicou que o grave problema no modelo de formação de professores é a pouca atenção dada ao conteúdo que o professor precisa aprender para repassar aos alunos em sala de aula.
Gustavo Ioschpe provocou os participantes lembrando-os de que os pais estão satisfeitos com a educação dos filhos, ainda que essa seja de baixa qualidade. Para Haddad, isso se deve ao fato de que esses pais tiveram acesso a um sistema educacional ainda pior e que a demanda por qualidade precisa vir das lideranças políticas, para depois ser incorporada à cultura popular como um valor. Maria Helena ainda sugeriu uma escola de pais, que os tornasse mais proativos na cobrança por melhorias na educação de seus filhos.
Os três integrantes concordaram que o país tem gastado mais com educação. Entretanto, precisa distribuir melhor esses gastos por todo o país, investir mais no ensino pré-escolar, fundamental e médio, cobrar bom desempenho dos gestores das instituições de ensino e gratificar financeiramente escolas e professores que alcancem as metas estabelecidas.
[RTC2] MEIO AMBIENTE [/RTC2]
O ministro Carlos Minc, o governador Blairo Maggi (MT) e o consultor da ONU, Luiz Augusto Horta Nogueira, foram os convidados a debater sobre o desafio de conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental. O economista Cláudio Moura Castro intermediou a conversa.
Minc reafirmou a intenção do Ministério do Meio Ambiente em aumentar o acesso da população a saneamento básico de 35% para 70% nos próximos dez anos e disse ser a favor do pagamento por serviços ambientais às pessoas que contribuem para a preservação de florestas e mananciais, por exemplo. Opinião compartilhada por Maggi, que lembrou que, no passado, os desbravadores de florestas eram tidos como heróis no país. Por isso, para o governador, não dá para transformar o mocinho em bandido de um dia para o outro. A solução estaria mesmo em gerar estímulos financeiros para que as pessoas preservassem as florestas em vez de destruí-las.
Outro ponto discutido no painel foi a poluição do ar nas grandes cidades. Horta falou sobre o prejuízo à saúde causado pelo diesel – responsável por 80% das partículas tóxicas presentes no ar. Minc rebateu alegando que, como a etapa para a redução de 500 ppm para 50ppm até janeiro de 2009 (de acordo com a Resolução do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente) atrasou bastante, a exigência será passar da emissão atual direto para os 10ppm. No entanto, o prazo para que essa redução seja feita é até 2012.
Quando o tema do desmatamento foi abordado, o ministro comentou sobre o acordo feito entre o governo federal e os exportadores de madeira para dobrar a oferta de madeira manejada e certificada brasileira no mercado internacional.
No quesito energia, Horta disse que talvez não haja uma área tão promissora para o Brasil quanto a dos biocombustíveis, que podem também gerar eletricidade a preços muito competitivos. Para quem teme que os biocombustíveis tomem o lugar da floresta, Minc afirma que a demanda do país é de seis milhões de hectares de cana, sendo que existem 50 milhões de hectares disponíveis sem que os biomas sejam ameaçados. Blairo Maggi também disse que ninguém quer retirar novas florestas para produzir etanol, mas utilizar as áreas já desmatadas.
Horta ainda se colocou contra a energia nuclear e a retomada das obras de Angra 3, afirmou que a comunidade acadêmica não vê sentido em investimentos em fontes nucleares e que as exigências do Ministério do Meio Ambiente não resolvem os possíveis impactos que a usina pode causar.
O ministro respondeu que, particularmente, também é contra a energia nuclear e diz que financeiramente não se trata de uma boa opção, no entanto, essa foi a opção do governo federal. No momento, o desafio do setor energético brasileiro é conter o desperdício de energia produzida e distribuída, que ainda chega a 25%.
[RTC3] ECONOMIA [/RTC3]
No painel de economia – que contou com a presença do presidente do Banco Central, Henrique Meireles, do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e dos economistas Armínio Fraga e Maílson da Nóbrega e foi mediado pelo diretor de redação de Veja, Eurípedes Alcântara – o assunto foi o novo papel assumido pelo Brasil em tempos de crise econômica mundial.
Os integrantes atribuíram a menor vulnerabilidade do país a fatores como: câmbio flutuante, regime de metas de inflação, aumento da integração com o comércio internacional, estabilidade da democracia, autonomia do Banco Central e, pela primeira vez na história do Brasil, reservas superiores a nossa dívida externa.
Também se comentou sobre a oportunidade de o país exportar commodities para a Ásia e de ocupar uma nova posição internacional com a exploração do Pré-sal. Sobre esse último assunto, os participantes se manifestaram a favor da criação de um fundo soberano para administrar o dinheiro proveniente dessa fonte, em vez de gastá-lo integralmente com investimentos internos. A inegável necessidade de cortar gastos públicos foi outro consenso entre os quatro convidados.
[RTC4] IMPRENSA [/RTC4]
O ministro do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, o jurista Márcio Thomas Bastos e o deputado federal Miro Teixeira discutiram sobre liberdade de imprensa e o papel da mídia na democracia – que possui apenas 20 anos, no Brasil. Quem intermediou as opiniões foi o articulista de Veja, Reinaldo Azevedo.
A rejeição ao Conselho Federal de Jornalismo, inclusive por parte do governo, foi comemorada por todos os participantes, que julgaram o órgão como mais um instrumento para cercear a liberdade dos jornalistas. Para eles, a mídia deve ser regulada pela própria sociedade e pela multiplicidade de veículos, entendendo que qualquer tentativa de controle fora disso pode ser considerada uma forma de censura.
A Constituição Americana – que não determina que a imprensa seja justa, mas que seja livre – foi lembrada pelos convidados, assim como a frase de Tocqueville sobre o fato de que os males da liberdade de imprensa se curam com ainda mais liberdade. Entre as lacunas a serem preenchidas pela imprensa, estariam discussões profundas sobre si mesma e sobre o poder judiciário, no intuito de aproximar a justiça e o povo.
[RTC5] DEMOCRACIA, RAÇA E POBREZA [/RTC5]
Na discussão sobre igualdade, os convidados – Hélio Santos, professor e ativista do Movimento Negro, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à fome, Patrus Ananias, e o antropólogo Roberto DaMatta – afirmaram haver necessidade de se pensar que tipo de igualdade queremos, na medida em que apenas o voto equacionado não garante uma sociedade justa e igualitária. A mediação do painel foi feita pelo editor executivo de Veja, Carlos Graieb.
Patrus Ananias afirmou que o bem estar social pode ser conquistado por meio de uma atribuição justa de taxas tributárias, de acordo com a condição financeira de cada contribuinte – “quem pode mais, paga mais, quem pode menos, paga menos e quem não pode, não paga”, diz. Para o ministro, a democracia só pode ser alcançada depois que as necessidades básicas dos cidadãos forem atendidas.
Ele também defendeu a opção do governo federal por programas de transferência direta de renda, como o Bolsa Família. Patrus acredita que essas iniciativas fortalecem a economia local, geram emprego e renda e aumentam o poder de compra dos beneficiados. Roberto DaMatta aposta mais em medidas que contribuam para a operacionalização de uma cidadania permanente e menos dependente do Estado.
Para Hélio Santos, todas as questões que envolvem desigualdade social, se olhadas de perto, denunciam uma origem racial. Ele comentou que, na época da abolição da escravatura, foram concedidos vários benefícios aos imigrantes que chegaram ao Brasil e também aos fazendeiros que perderam suas “propriedades”. Nenhum tipo de ajuda foi dada aos negros, que foram parar, inevitavelmente, nas ruas.
Pelo fato de essa herança ainda influenciar a realidade brasileira, Hélio Santos defende cotas para negros nas universidades públicas. “Na verdade, quero que se reduzam as cotas de 100% para os não negros”, diz. O professor conta que, por conta das cotas, nos últimos cinco anos, mais negros tiveram acesso ao ensino superior do que em todo o século 20. E para os que acreditam que a qualidade do ensino cairia com o fim do critério de entrada por mérito, os indicadores de qualidade – que contemplam taxa de repetição, de evasão e média geral das notas – das universidades que adotam o sistema de cotas aumentaram. Hélio ainda argumenta que as cotas servem para evitar o desperdício de talentos.
[RTC6] MEGACIDADES [/RTC6]
Na tentativa de encontrar saídas para o caos que se instalou nas grandes cidades brasileiras, foram convidados para compor o último painel os arquitetos e urbanistas Jaime Lerner, Raquel Rolnik e Jonas Rabinovitch. Carlos Maranhão, diretor de redação de Veja São Paulo, intermediou a discussão.
Lerner diz não gostar da visão de perplexidade com que normalmente o tema das Megacidades é tratado. Para ele, é preciso começar a agir em vez de ficar “projetando a tragédia”. O também ex-governador do Paraná acredita que há três problemas fundamentais a serem enfrentados: a mobilidade, a sustentabilidade e a coexistência. As cidades que não tratarem dessas questões terão grandes problemas a enfrentar em breve.
Rabinovitch sugere que saneamento básico, meio ambiente e transporte sejam entendidos como questões intermunicipais e aposta nas parcerias entre os governos para tomar medidas nesses setores. O coordenador do Fórum Internacional de Prefeitos da ONU ainda lembrou que as atenções não devem estar voltadas exclusivamente para as grandes cidades, já que as médias – com até 500 mil habitantes – têm apresentado um crescimento, em proporção, mais acelerado do que o das metrópoles. Para ele, essas cidades médias ainda têm chance de se planejar e evitar os erros cometidos no passado pelas megacidades de hoje.
Raquel diz que os problemas das grandes cidades são reflexos do modelo de desenvolvimento urbano – já que essas oferecem mais oportunidades de emprego para as pessoas, mas não conseguem absorver todo o contingente que migra para esses espaços e acaba indo para as favelas.
Dos cerca de 5.500 municípios brasileiros, apenas 129 possuem mais de 200 mil habitantes, sendo que somente 14 têm mais de um milhão de pessoas. Por isso, Lerner acredita que, com investimentos, o problema das grandes cidades poderia ter melhoras significativas em três anos.
Entre as sugestões dadas pelos convidados, estão o repovoamento de áreas centrais, a integração dos diversos modais de transporte, o uso de bicicletas públicas e a metronização dos ônibus. Os três arquitetos ressaltaram a importância de se misturar espaços de trabalho, moradia e lazer, que sejam freqüentados por pessoas de diferentes idades e classes sociais, para uma urbanização mais sustentável e que diminua a necessidade de deslocamentos.
A idéia de se implantar o pedágio urbano parece ser controversa em quase todo o mundo, segundo Rabinovitch. Raquel acredita que, em São Paulo, essa alternativa seria ainda mais polêmica, já que, ao contrário de cidades como Londres e Paris, não possuímos transporte público de qualidade. Para Lerner, não poderíamos falar em uma substituição do carro pelo ônibus ou o metrô, mas poderíamos começar nos tornando menos dependentes dos automóveis nos deslocamentos rotineiros. Pelo visto, o caos no trânsito só poderá ser resolvido com um conjunto de soluções inter-relacionadas.
Planejamento urbano
Durante a apresentação do painel de Megacidades, Raquel Rolnik, também relatora especial da ONU para assuntos relacionados ao direito à moradia no mundo, defendeu a criação de cotas urbanas de modo que o poder público conseguisse realizar um melhor planejamento urbano, que, sozinho, o mercado imobiliário jamais conseguiria fazer.
Ao final do painel, Raquel explicou melhor sua idéia ao Planeta Sustentável. Segundo a arquiteta, caberia à prefeitura destinar um percentual mínimo na expansão do espaço urbano às moradias populares – coisa que países como Inglaterra e Espanha já fazem há mais de cinqüenta anos. Até em Manhattan, onde há o metro quadrado mais caro do mundo, essas separações de cotas funcionam. Ainda que o terreno seja privado, nele só é permitido haver construção de casas populares. Isso evita a formação de aglomerados urbanos ilegais em áreas de preservação ambiental, à beira de córregos, ou em dunas, mangues e restingas.
Raquel se mostra otimista com o fato de que, pela primeira vez desde os anos 60, o centro de São Paulo parou de sofrer um esvaziamento e ganhou 10 mil novos moradores nos últimos dois anos, que podem andar mais a pé e de ônibus e deixar de priorizar o automóvel. Ela acredita que essas soluções de ocupação do espaço urbano são mais eficazes do que os chamados home offices, em que as pessoas acabam condenadas a uma menor convivência com os outros. Para Raquel, os paulistanos, cada vez mais, estão nas ruas, curtindo a cidade, o que é típico dos locais com alta densidade populacional.
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 04/09/2008
[RTC0] O BRASIL QUE QUEREMOS SER [/RTC0]
A revista Veja completou 40 anos de existência e comemorou a data com o seminário “O Brasil que queremos ser”, no dia 2 de setembro. O evento contou com a presença de cerca de 450 nomes relevantes no cenário nacional, não só para discutir a situação do país em relação a seis temas – Educação; Meio Ambiente; Economia; Imprensa; Democracia, Raça e Pobreza e Megacidades – como para elaborar propostas de melhorias nesses setores para as próximas quatro décadas. As 40 idéias geradas a partir do seminário vão para as bancas na edição de Veja do dia 10 de setembro.
Confira os melhores momentos no site do evento e, abaixo, os principais pontos levantados em cada um dos painéis.
[RTC1] EDUCAÇÃO [/RTC1]
O primeiro painel do dia, mediado pelo economista e colunista de Veja, Gustavo Ioschpe, foi composto pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, pela secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães, e pelo economista José Alexandre Scheinkman.
Para Scheinkman, os brasileiros começaram muito tardiamente a dar a devida importância à educação de nossas crianças. No entanto, Haddad diz que esse atraso está sendo superado na medida em que, atualmente, cada escola pública brasileira possui metas e diretrizes de qualidade específicas que pretendem levar o Brasil, até 2022, a alcançar um nível de desenvolvimento educacional equivalente ao dos países desenvolvidos.
O ministro ainda reconheceu que o sistema educacional do país não é necessariamente de má qualidade, mas desigual. Aliás, foi consenso entre os integrantes do painel que é preciso haver mais investimento dos governos na formação de docentes – até então relegada às instituições particulares de qualidade duvidosa – e dar condições para que os professores permaneçam trabalhando na rede pública.
Maria Helena explicou que o grave problema no modelo de formação de professores é a pouca atenção dada ao conteúdo que o professor precisa aprender para repassar aos alunos em sala de aula.
Gustavo Ioschpe provocou os participantes lembrando-os de que os pais estão satisfeitos com a educação dos filhos, ainda que essa seja de baixa qualidade. Para Haddad, isso se deve ao fato de que esses pais tiveram acesso a um sistema educacional ainda pior e que a demanda por qualidade precisa vir das lideranças políticas, para depois ser incorporada à cultura popular como um valor. Maria Helena ainda sugeriu uma escola de pais, que os tornasse mais proativos na cobrança por melhorias na educação de seus filhos.
Os três integrantes concordaram que o país tem gastado mais com educação. Entretanto, precisa distribuir melhor esses gastos por todo o país, investir mais no ensino pré-escolar, fundamental e médio, cobrar bom desempenho dos gestores das instituições de ensino e gratificar financeiramente escolas e professores que alcancem as metas estabelecidas.
[RTC2] MEIO AMBIENTE [/RTC2]
O ministro Carlos Minc, o governador Blairo Maggi (MT) e o consultor da ONU, Luiz Augusto Horta Nogueira, foram os convidados a debater sobre o desafio de conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental. O economista Cláudio Moura Castro intermediou a conversa.
Minc reafirmou a intenção do Ministério do Meio Ambiente em aumentar o acesso da população a saneamento básico de 35% para 70% nos próximos dez anos e disse ser a favor do pagamento por serviços ambientais às pessoas que contribuem para a preservação de florestas e mananciais, por exemplo. Opinião compartilhada por Maggi, que lembrou que, no passado, os desbravadores de florestas eram tidos como heróis no país. Por isso, para o governador, não dá para transformar o mocinho em bandido de um dia para o outro. A solução estaria mesmo em gerar estímulos financeiros para que as pessoas preservassem as florestas em vez de destruí-las.
Outro ponto discutido no painel foi a poluição do ar nas grandes cidades. Horta falou sobre o prejuízo à saúde causado pelo diesel – responsável por 80% das partículas tóxicas presentes no ar. Minc rebateu alegando que, como a etapa para a redução de 500 ppm para 50ppm até janeiro de 2009 (de acordo com a Resolução do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente) atrasou bastante, a exigência será passar da emissão atual direto para os 10ppm. No entanto, o prazo para que essa redução seja feita é até 2012.
Quando o tema do desmatamento foi abordado, o ministro comentou sobre o acordo feito entre o governo federal e os exportadores de madeira para dobrar a oferta de madeira manejada e certificada brasileira no mercado internacional.
No quesito energia, Horta disse que talvez não haja uma área tão promissora para o Brasil quanto a dos biocombustíveis, que podem também gerar eletricidade a preços muito competitivos. Para quem teme que os biocombustíveis tomem o lugar da floresta, Minc afirma que a demanda do país é de seis milhões de hectares de cana, sendo que existem 50 milhões de hectares disponíveis sem que os biomas sejam ameaçados. Blairo Maggi também disse que ninguém quer retirar novas florestas para produzir etanol, mas utilizar as áreas já desmatadas.
Horta ainda se colocou contra a energia nuclear e a retomada das obras de Angra 3, afirmou que a comunidade acadêmica não vê sentido em investimentos em fontes nucleares e que as exigências do Ministério do Meio Ambiente não resolvem os possíveis impactos que a usina pode causar.
O ministro respondeu que, particularmente, também é contra a energia nuclear e diz que financeiramente não se trata de uma boa opção, no entanto, essa foi a opção do governo federal. No momento, o desafio do setor energético brasileiro é conter o desperdício de energia produzida e distribuída, que ainda chega a 25%.
[RTC3] ECONOMIA [/RTC3]
No painel de economia – que contou com a presença do presidente do Banco Central, Henrique Meireles, do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e dos economistas Armínio Fraga e Maílson da Nóbrega e foi mediado pelo diretor de redação de Veja, Eurípedes Alcântara – o assunto foi o novo papel assumido pelo Brasil em tempos de crise econômica mundial.
Os integrantes atribuíram a menor vulnerabilidade do país a fatores como: câmbio flutuante, regime de metas de inflação, aumento da integração com o comércio internacional, estabilidade da democracia, autonomia do Banco Central e, pela primeira vez na história do Brasil, reservas superiores a nossa dívida externa.
Também se comentou sobre a oportunidade de o país exportar commodities para a Ásia e de ocupar uma nova posição internacional com a exploração do Pré-sal. Sobre esse último assunto, os participantes se manifestaram a favor da criação de um fundo soberano para administrar o dinheiro proveniente dessa fonte, em vez de gastá-lo integralmente com investimentos internos. A inegável necessidade de cortar gastos públicos foi outro consenso entre os quatro convidados.
[RTC4] IMPRENSA [/RTC4]
O ministro do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, o jurista Márcio Thomas Bastos e o deputado federal Miro Teixeira discutiram sobre liberdade de imprensa e o papel da mídia na democracia – que possui apenas 20 anos, no Brasil. Quem intermediou as opiniões foi o articulista de Veja, Reinaldo Azevedo.
A rejeição ao Conselho Federal de Jornalismo, inclusive por parte do governo, foi comemorada por todos os participantes, que julgaram o órgão como mais um instrumento para cercear a liberdade dos jornalistas. Para eles, a mídia deve ser regulada pela própria sociedade e pela multiplicidade de veículos, entendendo que qualquer tentativa de controle fora disso pode ser considerada uma forma de censura.
A Constituição Americana – que não determina que a imprensa seja justa, mas que seja livre – foi lembrada pelos convidados, assim como a frase de Tocqueville sobre o fato de que os males da liberdade de imprensa se curam com ainda mais liberdade. Entre as lacunas a serem preenchidas pela imprensa, estariam discussões profundas sobre si mesma e sobre o poder judiciário, no intuito de aproximar a justiça e o povo.
[RTC5] DEMOCRACIA, RAÇA E POBREZA [/RTC5]
Na discussão sobre igualdade, os convidados – Hélio Santos, professor e ativista do Movimento Negro, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à fome, Patrus Ananias, e o antropólogo Roberto DaMatta – afirmaram haver necessidade de se pensar que tipo de igualdade queremos, na medida em que apenas o voto equacionado não garante uma sociedade justa e igualitária. A mediação do painel foi feita pelo editor executivo de Veja, Carlos Graieb.
Patrus Ananias afirmou que o bem estar social pode ser conquistado por meio de uma atribuição justa de taxas tributárias, de acordo com a condição financeira de cada contribuinte – “quem pode mais, paga mais, quem pode menos, paga menos e quem não pode, não paga”, diz. Para o ministro, a democracia só pode ser alcançada depois que as necessidades básicas dos cidadãos forem atendidas.
Ele também defendeu a opção do governo federal por programas de transferência direta de renda, como o Bolsa Família. Patrus acredita que essas iniciativas fortalecem a economia local, geram emprego e renda e aumentam o poder de compra dos beneficiados. Roberto DaMatta aposta mais em medidas que contribuam para a operacionalização de uma cidadania permanente e menos dependente do Estado.
Para Hélio Santos, todas as questões que envolvem desigualdade social, se olhadas de perto, denunciam uma origem racial. Ele comentou que, na época da abolição da escravatura, foram concedidos vários benefícios aos imigrantes que chegaram ao Brasil e também aos fazendeiros que perderam suas “propriedades”. Nenhum tipo de ajuda foi dada aos negros, que foram parar, inevitavelmente, nas ruas.
Pelo fato de essa herança ainda influenciar a realidade brasileira, Hélio Santos defende cotas para negros nas universidades públicas. “Na verdade, quero que se reduzam as cotas de 100% para os não negros”, diz. O professor conta que, por conta das cotas, nos últimos cinco anos, mais negros tiveram acesso ao ensino superior do que em todo o século 20. E para os que acreditam que a qualidade do ensino cairia com o fim do critério de entrada por mérito, os indicadores de qualidade – que contemplam taxa de repetição, de evasão e média geral das notas – das universidades que adotam o sistema de cotas aumentaram. Hélio ainda argumenta que as cotas servem para evitar o desperdício de talentos.
[RTC6] MEGACIDADES [/RTC6]
Na tentativa de encontrar saídas para o caos que se instalou nas grandes cidades brasileiras, foram convidados para compor o último painel os arquitetos e urbanistas Jaime Lerner, Raquel Rolnik e Jonas Rabinovitch. Carlos Maranhão, diretor de redação de Veja São Paulo, intermediou a discussão.
Lerner diz não gostar da visão de perplexidade com que normalmente o tema das Megacidades é tratado. Para ele, é preciso começar a agir em vez de ficar “projetando a tragédia”. O também ex-governador do Paraná acredita que há três problemas fundamentais a serem enfrentados: a mobilidade, a sustentabilidade e a coexistência. As cidades que não tratarem dessas questões terão grandes problemas a enfrentar em breve.
Rabinovitch sugere que saneamento básico, meio ambiente e transporte sejam entendidos como questões intermunicipais e aposta nas parcerias entre os governos para tomar medidas nesses setores. O coordenador do Fórum Internacional de Prefeitos da ONU ainda lembrou que as atenções não devem estar voltadas exclusivamente para as grandes cidades, já que as médias – com até 500 mil habitantes – têm apresentado um crescimento, em proporção, mais acelerado do que o das metrópoles. Para ele, essas cidades médias ainda têm chance de se planejar e evitar os erros cometidos no passado pelas megacidades de hoje.
Raquel diz que os problemas das grandes cidades são reflexos do modelo de desenvolvimento urbano – já que essas oferecem mais oportunidades de emprego para as pessoas, mas não conseguem absorver todo o contingente que migra para esses espaços e acaba indo para as favelas.
Dos cerca de 5.500 municípios brasileiros, apenas 129 possuem mais de 200 mil habitantes, sendo que somente 14 têm mais de um milhão de pessoas. Por isso, Lerner acredita que, com investimentos, o problema das grandes cidades poderia ter melhoras significativas em três anos.
Entre as sugestões dadas pelos convidados, estão o repovoamento de áreas centrais, a integração dos diversos modais de transporte, o uso de bicicletas públicas e a metronização dos ônibus. Os três arquitetos ressaltaram a importância de se misturar espaços de trabalho, moradia e lazer, que sejam freqüentados por pessoas de diferentes idades e classes sociais, para uma urbanização mais sustentável e que diminua a necessidade de deslocamentos.
A idéia de se implantar o pedágio urbano parece ser controversa em quase todo o mundo, segundo Rabinovitch. Raquel acredita que, em São Paulo, essa alternativa seria ainda mais polêmica, já que, ao contrário de cidades como Londres e Paris, não possuímos transporte público de qualidade. Para Lerner, não poderíamos falar em uma substituição do carro pelo ônibus ou o metrô, mas poderíamos começar nos tornando menos dependentes dos automóveis nos deslocamentos rotineiros. Pelo visto, o caos no trânsito só poderá ser resolvido com um conjunto de soluções inter-relacionadas.
Planejamento urbano
Durante a apresentação do painel de Megacidades, Raquel Rolnik, também relatora especial da ONU para assuntos relacionados ao direito à moradia no mundo, defendeu a criação de cotas urbanas de modo que o poder público conseguisse realizar um melhor planejamento urbano, que, sozinho, o mercado imobiliário jamais conseguiria fazer.
Ao final do painel, Raquel explicou melhor sua idéia ao Planeta Sustentável. Segundo a arquiteta, caberia à prefeitura destinar um percentual mínimo na expansão do espaço urbano às moradias populares – coisa que países como Inglaterra e Espanha já fazem há mais de cinqüenta anos. Até em Manhattan, onde há o metro quadrado mais caro do mundo, essas separações de cotas funcionam. Ainda que o terreno seja privado, nele só é permitido haver construção de casas populares. Isso evita a formação de aglomerados urbanos ilegais em áreas de preservação ambiental, à beira de córregos, ou em dunas, mangues e restingas.
Raquel se mostra otimista com o fato de que, pela primeira vez desde os anos 60, o centro de São Paulo parou de sofrer um esvaziamento e ganhou 10 mil novos moradores nos últimos dois anos, que podem andar mais a pé e de ônibus e deixar de priorizar o automóvel. Ela acredita que essas soluções de ocupação do espaço urbano são mais eficazes do que os chamados home offices, em que as pessoas acabam condenadas a uma menor convivência com os outros. Para Raquel, os paulistanos, cada vez mais, estão nas ruas, curtindo a cidade, o que é típico dos locais com alta densidade populacional.
























