A água deve ser analisada na perspectiva de sua distribuição política, pois assim como a distribuição natural, ela também é desigual: a água abunda onde o consumo é menor e falta onde ocorre desperdício. Essa visão política da crise da água é a maior contribuição do livro Geografia Política da Água, do geógrafo Wagner Costa Ribeiro, lançado no final de junho. A intenção do autor, doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo, onde é professor, e pós-doutor pela Universidade de Barcelona, é demonstrar que a ausência de uma regulação internacional para o acesso à água por meio de uma convenção internacional, que é um pacto político entre países, permite sua comercialização em escala global e, se for preciso, o uso da força para conseguir abastecer a população dos diversos países.
Mais que um livro técnico, porém, Geografia Política da Água mostra, com uma linguagem bastante acessível e interessante, como a água se distribui e como vem sendo tratada internacionalmente, com as conseqüências atuais e futuras de um problema que, mais do que ambiental, está relacionado à gestão e poder - econômico e ambiental. Para Ribeiro, a crise da água é resultado de fatores como escassez pontual, consumo exagerado e sua elevação à condição de mercadoria em escala global. Não haverá falta de água se essas dificuldades forem superadas, acredita, e afirma: sem o acesso justo e eqüitativo à água, a segurança internacional está ameaçada e viveremos sob risco de novas guerras por conta disso.
O primeiro capítulo trata da distribuição política da água e mostra que o maior uso atual do recurso é a produção de mercadorias, em sistemas industriais e agrícolas, que a devolvem ao ambiente quase sempre sem tratamento. O autor mostra que a água renovável (a diferença entre o que chove e o que evapora na parte continental na Terra, ou seja, a que retorna para os copos d'água) é finita e não há consenso sobre seu volume (algo entre 34 mil e 47 mil km3 por ano). Além de não ser igualmente distribuída pelo planeta, essa água vem sendo contaminada de diversas maneiras.
Por conta disso, países com excedente de água, como é o caso do Brasil, devem ser alvo de disputa comercial ou militar nos próximos anos. O Rio Amazonas, por exemplo, despeja 15% da água doce total que chega aos oceanos por ano. Outro caso é o Rio Congo, que sozinho responde por 33% da água que escoa no continente africano. Fatores - como a urbanização acelerada - também influenciam na distribuição da água, pois as manchas urbanas exigem grandes volumes do recurso para suprir suas necessidades e possuem uma grande dependência dos mananciais existentes.
São Paulo, com seus cerca de 20 milhões de habitantes, é um caso para atenção: seus mananciais são insuficientes e estão ameaçados pela poluição e a região é dependente da água de outras bacias hidrográficas para abastecer sua população. Outro exemplo preocupante é La Paz, na Bolívia, abastecida pela água do degelo da Cordilheira Real, onde estudos detectam uma aceleração no derretimento das geleiras, o que pode representar o fim da fonte de abastecimento de mais de dois milhões de pessoas.
Outro fator a ser levado em conta está ligado aos níveis de consumo altamente desiguais, mesmo entre países com nível de renda semelhante. Cada habitante dos Estados Unidos consome mais do que a soma do total gasto por habitante da França e do Japão. A Argentina consome quase quatro vezes mais que o total brasileiro e cerca de três vezes o uso total da África do Sul.
Se formos comparar o consumo dos ricos em relação aos pobres, um cidadão americano consome 34 vezes mais água do que um moçambicano. Os trinta países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reúnem 15% da população mundial, mas consomem 27% do total utilizado pela espécie humana na Terra. Apenas os Estados Unidos ficam 12,5% da água consumida no mundo, com 3,5% da população.
Com esses dados, o autor afirma, no capítulo dedicado à crise da água, que pior do que a falta de acesso à água e ao saneamento básico, que atinge quase 2,5 bilhões de pessoas, é o consumismo, que assola as camadas dominantes. Mantidas as proporções de consumo de água e os padrões de vida atuais, em 2025 cerca de dois terços da população mundial viverá em estresse hídrico.
O geógrafo analisa, no capítulo sobre a água na ordem ambiental internacional, que, diferente de outras questões ambientais, a do acesso à água não conseguiu mobilizar as camadas dirigentes de países para uma convenção internacional específica - como acontece com a biodiversidade e as mudanças climáticas. Para Ribeiro, esse cenário possibilita conseqüências como o comércio internacional de água e o conflito que se gera por ela. "A ausência de regulamentação deve despertar a atenção para países que detêm grande estoque hídrico. Eles podem vir a ser alvo de cobiça internacional e precisam preparar-se para enfrentar novos desafios", afirma.
O livro é, ainda, uma ótima fonte para quem quer conhecer as conferências e fóruns internacionais que abordam água como tema e a institucionalização da gestão dos recursos hídricos na escala global, assim como o direito à água pelos organismos internacionais. No geral, embora seja reconhecido como um direito fundamental para a manutenção da vida, é aceita a idéia de manter o acesso à água como um negócio, vinculando a existência humana à capacidade de pagamento pelo que acaba sendo considerado um recurso.
Sem meias palavras, Ribeiro mostra que o comércio é a possibilidade de resolução da distribuição da água que enriquece grupos transnacionais, chamados de "senhores da água", e que o problema só será resolvido com mudanças fundamentais, que envolvem uma nova ética mundial: "É preciso alterar a visão sobre a água e seu uso. Em vez de torná-la uma mercadoria, com preços definidos a partir de uma ética para acumulação de capital, é necessário reafirmar sua importância à sobrevivência humana e garantir seu acesso a todos".