Mudança de valores. O que significa isso? Embora aparente ser óbvia, a resposta a essa questão é muito mais complexa do que se imagina. Valores variam segundo a cultura, a classe social e, pode-se dizer, até mesmo de pessoa para pessoa.Portanto, como defender uma mudança de valores que possa agradar a todos? Ou, reduzindo a questão ao seu mínimo possível: quais são os valores essenciais e comuns, sobre os quais possamos todos erigir novas bases sociais?
Essas e outras questões fundamentais para quem se interessa por educação e em especial por educação ambiental são apresentadas e discutidas, com sabor, no livro Jornada de Amor à Terra: ética e educação em valores universais.
Mas repare em um detalhe importante: a expressão com sabor, usada antes para caracterizar a obra, não foi apenas retórica. São muito raros, atualmente, os livros que discutem as questões relativas à problemática ambiental fazendo uso da dupla seriedade-leveza. Mais raros, ainda, são aqueles que expandem essa dupla para o tripé seriedade-leveza-propostas práticas. Esse, portanto, é o grande mérito e a razão pela qual você deve ler a obra de Roizman e Ferreira.
Sobretudo se for professor(a) ou educador(a) ambiental, você encontrará no livro os princípios básicos da Ecologia aqueles que norteiam a compreensão que se tem hoje das mudanças ambientais em curso no planeta e que são fundamentais para entendê-las e respaldar qualquer discurso sobre proteção ambiental (que, aliás, não podem mais ser meramente apelativos ou emocionais). De maneira didática, no que esse termo tem de mais positivo, é preciso que adultos e crianças sejam "alfabetizados" nos conceitos científicos ecológicos e o livro certamente o ajudará a fazer isso, pois aborda de uma maneira muito simples e atraente conceitos relativos às trocas energéticas nos ecossistemas, à dinâmica de populações, à adaptação e à evolução.
Outro diferencial importante da obra é a relação que as autoras fazem entre ecologia e antropologia. Natureza e cultura, biodiversidade e diversidade cultural, são "farinha do mesmo saco". A defesa da biodiversidade anda, portanto, passo-a-passo, com o enaltecimento da pluralidade e a defesa da diversidade cultural. Não é à toa, portanto, que grande parte do livro é dedicada a esses temas. Capítulos especiais tratam do fato de que "a riqueza está nas diferenças", da "ética da diversidade" e da "evolução social". O ponto final dessa trajetória de reflexão não poderia ser outro: a necessidade de se desenvolver uma cultura de solidariedade, de participação e de tolerância. Em outros termos, de se desenvolver a mais que necessária "cultura da paz".
Mas, dito tudo isso, onde está a prática? As propostas de caráter prático são certamente as partes mais importantes e gostosas desse livro. A cada capítulo principal você encontrará quatro ou cinco descrições de atividades relacionadas ao tema em foco e que o complementam. São principalmente dinâmicas de grupo e jogos cooperativos, além de atividades artísticas e projetos pedagógicos, que devem ser desenvolvidos, para que as pessoas se sensibilizem ou para que apreendam de maneira lúdica e prazerosa noções e conceitos fundamentais. Na seleção dessas atividades, certamente as autoras contaram com a própria experiência de educadoras e formadoras nos projetos para a formação de educadores e jovens da Associação Palas Athena. Sinal de que a eficácia será garantida.
Falta, ainda, um último comentário que recomenda a leitura desse livro: nota 10 ao projeto gráfico da publicação. Do papel reciclado às ilustrações de Darci Campioti e aos grafismos da flora brasileira de Renata Gorresio Roizman, tudo nessa obra manifesta cuidado e delicadeza.