Acesso à água é um desafio milenar que aflige inúmeras espécies, inclusive a dos bípedes pelados: nós mesmos. Ocorre que, apesar de grandes consumidores desse recurso, temos pouco e, às vezes, nenhum cuidado com sua preservação. E isso diz respeito à poluição histórica e crescente dos rios e oceanos, lagos e lagoas, represas e açudes, lençóis e aqüíferos. Até na chuva, água que Deus manda, a gente interfere. Dizendo de maneira popular, mas educada, a maioria está causando e andando para o problema.
E essa é a senha para compreender o irônico título deste livro, "Administrando a Água como se Fosse Importante", obra relativamente nova, mas já referencial. Ora, claro que água é importante e os organizadores, Ladislau Dowbor e Renato Arnaldo Tagnin - ambos professores e pesquisadores reconhecidos - reuniram um time de feras para tratar direito do assunto, cada qual em um capítulo diferente.
A idéia foi dar ênfase à gestão, ou seja, idéias e procedimentos para fazer funcionar as políticas ambientais. "A gestão da água ou 'das águas', nas suas diversas dimensões e usos, é particularmente complexa", escreve a dupla organizadora logo no começo. Entre outros aspectos, eles chamam atenção para o fato de a água ser, ao mesmo tempo, um recurso natural - que, a se dar atenção ao discurso do chefe Seattle e à Nossa Senhora do Bom Senso, pertence a todos - e também uma mercadoria, disponível em garrafas ou servida encanada, por exemplo, para que lavemos nosso automóvel nos finais de semana e escovemos nossos dentinhos após as refeições, entre outras ações de maior ou menor impacto no meio ambiente. Mas como organizar toda essa confusão de maneira democrática?
No Brasil, assim como no mundo, 85% da água consumida vai para a agricultura, quase sempre a bordo de sistemas de irrigação ultrapassados, que aspergem bem mais do que seria recomendável. A indústria utiliza 10% e o uso doméstico demanda 5%. Os dados estão no capítulo "Economia da Água", do próprio Ladislau Dowbor. Diz ele: "O problema essencial é que a água que utilizamos recolhe os defensivos químicos da agricultura moderna, os resíduos industriais e os esgotos domésticos e se mistura às reservas existentes, gerando um efeito multiplicador de poluição de uma massa de água incomparavelmente superior ao volume de consumo". Quando o professor começa a falar dos dejetos, é melhor sentar e respirar fundo - mas não muito: "O ser humano produz, diariamente, nas cidades do mundo, mais de 2 milhões de toneladas de excrementos, dos quais 98% vão para os rios, sem tratamento".
Um dos autores convidados é o químico José Eduardo de Campos Siqueira, que fala sobre ideologia da água (!) e privatização do saneamento. Diretor técnico da Fundação Agência de Bacia Hidrográfica Alto Tietê, ele pergunta: "Quem é mais capaz de garantir o acesso da população à água: o setor público ou o setor privado? Ou ambos, por meio de parcerias adequadas?". E segue a resposta, ou as pistas para chegar a ela, entre digressões filosóficas e números de dar medo, como estes: "Conforme o relatório de 2003, das Organização das Nações Unidas - ONU (http://www.un.org/) , sobre os recursos hídricos, 1,1 bilhão de pessoas no mundo não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões não dispõem de instalações sanitárias elementares".
O crescimento urbano merece destaque no livro, já que seus efeitos ameaçam a oferta de água potável. "Na década de 1940, São Paulo tinha 1,4 milhão de habitantes e construía 5,6 edificações por hora. Em 1960, contava com 3,8 milhões de habitantes", escrevem a seis mãos André Pousada, Edson Pinzan e Maristela da S. G. Sugiyama, cujo estudo propõe uma reflexão sobre o uso da água em atividades de lazer e turismo. "O censo de 2000 contou 10,5 milhões de habitantes".
Que fique claro que este não é um livro com começo, meio e fim, do tipo que pega o leitor pela mão e lhe facilita o caminho. Assim como Dowbor e Tagnin, os autores são, em geral, acadêmicos, estudiosos e especialistas, e a quantidade de números e estatísticas pode tornar a leitura - vamos dizer - um tanto árida. Porém, ainda que avançando caoticamente sobre os capítulos, ou mesmo abrindo as páginas ao acaso, como naqueles livrinhos de sabedoria, somos surpreendidos seguidamente por conhecimentos úteis, tendo em vista os tempos difíceis que nos estão reservados para um futuro próximo. Uma obra para ser lida de ponta a ponta, como se fosse importante.