Você faz alguma idéia de como foi fabricado seu tênis importado, seu celular cintilante, seu aparelho de MP4 de última geração? E se você soubesse que eles podem ter sido produzidos com o trabalho de jovens que recebem menos de um salário mínimo e ainda são obrigados a morar na própria empresa, dentro de quartos apertados com condições higiênicas pouco favoráveis? Ainda assim compraria essas maravilhas da tecnologia sem se importar?
[img01]Se não passa pela sua cabeça que esses métodos trabalhistas (ou seriam escravagistas?) medievais ainda existem, em pleno século 21, assista ao filme A decent factory (Uma fábrica decente) o mais rápido possível. O documentário de quase 80 minutos - uma produção franco-finlandesa, de 2004, dirigida por Thomas Balmès - foi encomendado pela Nokia, fabricante de celulares mundialmente conhecida, com sede na distante Finlândia, e já foi visto no circuito alternativo mundial por milhares de pessoas. No Brasil, o filme fez sucesso na edição de 2005 do festival É tudo verdade.
O foco do documentário é a visita de duas especialistas em ética a uma fábrica chinesa fornecedora de carregadores de celulares terceirizada pela Nokia. Fazendo uma minuciosa inspeção nas condições de trabalho, as duas profissionais encontram um cenário preocupante: jovens mulheres chinesas semi-escravizadas na linha de produção e uma diretoria sempre disposta a mitigar a situação colocando panos quentes.
O tema é delicado, mas mesmo assim o filme transcorre sem grandes dramaticidades, sem clima pesado. Ao contrário, percebe-se, até mesmo, muita ironia e algum bom humor ao longo da narrativa. Esse olhar descontraído, no entanto, não esconde o ambiente insalubre onde as funcionárias chinesas trabalham longas horas por dia. Depois do expediente, elas ainda são obrigadas a conviver em minúsculos alojamentos dentro da fábrica como se fossem presidiárias.
[img02]Em um mercado onde a concorrência é cada vez mais acirrada entre as empresas, "A decent factory" coloca em xeque o dilema da terceirização em busca de mão-de-obra abundante e barata nos países em desenvolvimento, em detrimento da ética e dos direitos humanos. Empresas globalizadas como a Nokia já investem em especialistas em responsabilidade social e meio ambiente para tentar melhorar sua imagem junto ao público. Mas só isso basta? A certa altura do filme, até mesmo um dos diretores da Nokia se questiona: "Queremos realmente mudar o mundo ou apenas fazer marketing?".
(*) Para solicitar o DVD, entrar em contato com o Consulado da França pelo telefone (11) 3371-5400 ou por email: audiovisual.sp@gmail.com