ciclo sujo
Etanol: combustível sustentável? Ainda não
Professor da Unicamp diz que o processo produtivo do etanol brasileiro ainda está longe de ser social e ambientalmente correto
Por Afonso Capelas Jr.
Planeta Sustentável - 13/08/2008
[img1]“O etanol brasileiro só será um combustível verdadeiramente sustentável quando atingirmos a segunda geração na sua produção”. A afirmação é do coordenador do Laboratório de Química Ambiental da Universidade de Campinas - Unicamp, Wilson de Figueiredo Jardim.
Formado em Química e doutor em Ciências Ambientais pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, Jardim acredita que o Brasil aprendeu a melhorar a qualidade do álcool combustível, mas que ainda é preciso aprimorar a sua produção a partir de resíduos agroindustriais como o bagaço da cana e a palha de milho e de arroz, sem que haja competição com as áreas de plantio de alimentos, a chamada segunda geração dos biocombustíveis. “Atualmente o ciclo de vida do etanol não pode ser considerado limpo. Além dos fertilizantes químicos, utilizamos caminhões movidos a diesel para transportar a produção e temos problemas com a erosão do solo e o emprego de muita água no processo”. Segundo o especialista, para se conseguir apenas um litro de álcool são necessários 500 litros de água. Sem contar as multas que a indústria recebe todos os meses pela poluição que causa com a queima da palha da cana. “Não podemos esquecer todos esses dados no balanço geral”, explica.
Para Jardim, entretanto, é na questão trabalhista que a indústria do álcool fica muito longe de ser sustentável, por conter a parte mais perversa da cadeia produtiva, que o pesquisador da Unicamp compara com a dos tempos dos senhores de engenho. “Desde a época do Brasil Colônia há um incentivo do governo à mão-de-obra barata com subsídios aos usineiros. Os salários pagos aos cortadores de cana vem caindo desde a década de 1970, assim como a expectativa de vida deles. É hora de cobrar tais injustiças sociais”. Além da vinda da segunda geração do etanol será preciso mecanizar a produção. “A mecanização vai diminuir significativamente as emissões de gases que acentuam o aquecimento global”.
Em um nível mais abrangente, o pesquisador alerta que o ser humano precisa conter suas demandas básicas por energia, alimentação, vestuário e transporte. “Nosso modelo de desenvolvimento é suicida, baseado na extração e beneficiamento exacerbados de matérias-primas naturais. Nas últimas décadas a população mundial cresceu quatro vezes mais, a demanda por água subiu nove vezes e a nossa necessidade de energia aumentou em 16 vezes”, esclarece Jardim.
Em contrapartida – ainda segundo o pesquisador – as reservas mundiais de petróleo devem esgotar-se em 45 anos, a de gás natural em 70 anos e a de carvão só dá para, no máximo, mais 170 anos. “Para conseguir um mínimo de desenvolvimento sustentável é preciso repensar, já, nossos hábitos fundamentados no desperdício e na conveniência para alcançar um patamar de igualdade ambiental, social e econômica”, diz. E exemplifica: “De que adianta o avanço da tecnologia em desenvolver e produzir veículos cada vez mais econômicos e menos poluentes, se ainda existem sociedades excessivamente consumistas que insistem em ter três carros em cada garagem?”.
[img1]“O etanol brasileiro só será um combustível verdadeiramente sustentável quando atingirmos a segunda geração na sua produção”. A afirmação é do coordenador do Laboratório de Química Ambiental da Universidade de Campinas - Unicamp, Wilson de Figueiredo Jardim.
Formado em Química e doutor em Ciências Ambientais pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, Jardim acredita que o Brasil aprendeu a melhorar a qualidade do álcool combustível, mas que ainda é preciso aprimorar a sua produção a partir de resíduos agroindustriais como o bagaço da cana e a palha de milho e de arroz, sem que haja competição com as áreas de plantio de alimentos, a chamada segunda geração dos biocombustíveis. “Atualmente o ciclo de vida do etanol não pode ser considerado limpo. Além dos fertilizantes químicos, utilizamos caminhões movidos a diesel para transportar a produção e temos problemas com a erosão do solo e o emprego de muita água no processo”. Segundo o especialista, para se conseguir apenas um litro de álcool são necessários 500 litros de água. Sem contar as multas que a indústria recebe todos os meses pela poluição que causa com a queima da palha da cana. “Não podemos esquecer todos esses dados no balanço geral”, explica.
Para Jardim, entretanto, é na questão trabalhista que a indústria do álcool fica muito longe de ser sustentável, por conter a parte mais perversa da cadeia produtiva, que o pesquisador da Unicamp compara com a dos tempos dos senhores de engenho. “Desde a época do Brasil Colônia há um incentivo do governo à mão-de-obra barata com subsídios aos usineiros. Os salários pagos aos cortadores de cana vem caindo desde a década de 1970, assim como a expectativa de vida deles. É hora de cobrar tais injustiças sociais”. Além da vinda da segunda geração do etanol será preciso mecanizar a produção. “A mecanização vai diminuir significativamente as emissões de gases que acentuam o aquecimento global”.
Em um nível mais abrangente, o pesquisador alerta que o ser humano precisa conter suas demandas básicas por energia, alimentação, vestuário e transporte. “Nosso modelo de desenvolvimento é suicida, baseado na extração e beneficiamento exacerbados de matérias-primas naturais. Nas últimas décadas a população mundial cresceu quatro vezes mais, a demanda por água subiu nove vezes e a nossa necessidade de energia aumentou em 16 vezes”, esclarece Jardim.
Em contrapartida – ainda segundo o pesquisador – as reservas mundiais de petróleo devem esgotar-se em 45 anos, a de gás natural em 70 anos e a de carvão só dá para, no máximo, mais 170 anos. “Para conseguir um mínimo de desenvolvimento sustentável é preciso repensar, já, nossos hábitos fundamentados no desperdício e na conveniência para alcançar um patamar de igualdade ambiental, social e econômica”, diz. E exemplifica: “De que adianta o avanço da tecnologia em desenvolver e produzir veículos cada vez mais econômicos e menos poluentes, se ainda existem sociedades excessivamente consumistas que insistem em ter três carros em cada garagem?”.