redes sociais
O futuro são as redes distribuídas
David de Ugarte e Augusto de Franco, dois especialistas em redes sociais, falaram sobre o assunto na conferência que aconteceu na noite de 20 de junho, após a realização do Global Fórum América Latina
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 26/06/2008
A conferência Redes Sociais e Sustentabilidade, que aconteceu no dia 20 de junho, após o término do Global Forum América Latina, contou com a presença do economista David de Ugarte, integrante da Sociedad de las Indias Eletrónicas – consultoria especializada em redes sociais –, e do físico e cientista político Augusto de Franco.
Os especialistas falaram sobre a importância de nos organizarmos em rede se quisermos alcançar o desenvolvimento – considerado por eles como sinônimo de sustentabilidade.
Augusto de Franco começou afirmando que tudo o que é sustentável possui a estrutura de redes. A premissa para que um sistema sobreviva é a sua capacidade de conservar as adaptações que faz. Ele também acredita que não é à toa que a idéia de sustentabilidade tenha sido inicialmente relacionada ao aspecto ambiental, já que os grandes exemplos bem sucedidos de sustentabilidade estão na natureza.
Mas David de Ugarte alerta que o discurso sobre sustentabilidade com informações alarmistas sobre a escassez de recursos naturais se disseminou de maneira estratégica, nos anos 90, para justificar a política protecionista e as altas barreiras alfandegárias européias e norte-americanas a produtos brasileiros, chineses e de outras economias emergentes. Segundo ele, tratava-se de difundir para a opinião pública “o perigo do desenvolvimento do terceiro mundo”.
Nosso desafio atual é ampliar a dimensão da sustentabilidade para as esferas social e econômica. David de Ugarte defende que a relação entre a humanidade e o meio ambiente é uma projeção do tipo de relação que existe entre as pessoas. Por isso, a sustentabilidade deve ir além da preservação de matérias-primas e se tornar o objetivo dos indivíduos e das organizações, de modo que haja liberdade e democracia em todo lugar.
“Não adianta salvar o meio-ambiente natural, se não salvarmos o social”, diz Augusto de Franco. Ele argumenta que a biosfera tem sua própria capacidade reguladora e já está se virando para se salvar. Assim, o ser humano – que não é uma parte significativa do ponto de vista da biologia da evolução – é que está em risco.
Ao falar sobre a necessidade de preservarmos nossa existência, Augusto provocou: “Devemos encarar a vida como um valor principal, mas não como o único. Para os humanos sobreviverem fazemos qualquer negócio? Precisamos nos adaptar às mudanças sem perder o que construímos: a sociedade, as comunidades, o voluntariado, a cooperação, o agir gratuitamente. Somos humanos e humanizantes do planeta. Eu não gostaria de viver num mundo onde esses valores não existissem”.
David afirma que é impensável falar em sustentabilidade em países não democráticos, assim como em modelos de sociedade patriarcais e machistas. O sistema educacional atual não pode ser chamado de sustentável, tampouco o sistema energético, independentemente das matérias primas utilizadas, pois ainda não está a serviço do desenvolvimento da sociedade.
As empresas, normalmente monárquicas, também vão precisar alterar suas estruturas se quiserem ser sustentáveis. Uma empresa sustentável, para David de Ugarte, é aquela capaz de criar um âmbito deliberativo e democrático em seu interior. “A história da humanidade é marcada pela luta contra os nodos centralizadores, que são um peso para a sociedade e acabam caindo. Precisamos entender que os nodos não podem ser insubstituíveis. Tudo o que gera dependência é insustentável”.
Augusto de Franco diz que as empresas estão começando a entender que as formas verticais não funcionam bem e que o capital social – a relação entre os membros das organizações e a troca de informações entre eles – é um grande gerador de inovação e produtividade.
Além disso, há que se pensar nas organizações como promotoras do desenvolvimento não apenas interno, mas também de seus stakeholders. “A empresa do futuro não será produtiva de forma isolada. Ela será uma comunidade de negócios na rede dos seus stakeholders e não será capaz de se adaptar às mudanças se não tiver conexões com o ambiente social e econômico onde está inserida”, diz Augusto. Promover o voluntariado e possuir uma causa que vá além do lucro também serão pré-requisitos básicos.
Ugarte acredita que, nos anos 90, dois processos começaram a romper a perspectiva de centralização e promover a articulação em redes: o avanço da internet e o surgimento das novas democracias do leste europeu, de Taiwan e da Coréia do Sul, que adquiriram conhecimento e uma enorme capacidade exportadora. O que lhes confere, atualmente, níveis de desenvolvimento humano iguais ao da Espanha e superiores aos da Grécia e de Portugal.
Ele conta que quando se pensou a internet e a própria arquitetura da rede, havia três possibilidades para construí-la:
Rede centralizada – com um nodo central, todas as ramificações dependeriam dele. Se esse nodo caísse, toda a rede ficaria comprometida.
Rede descentralizada – mesmo que o modelo parecesse mais eficiente que o primeiro, com vários nodos centralizando partes da rede, ainda não se tratava de uma solução interessante, já que cada parte continuaria dependendo de seu nodo central.
Rede distribuída – sem nodos centrais, e com os pontos se ligando diretamente uns aos outros, se um deles cai, a informação pode chegar através de outros pontos e não há prejuízo para o sistema.
A organização em redes distribuídas também não combina com monopólio – seja de tecnologias ou de informações. Por esse motivo, David de Ugarte se posiciona contra o regime de propriedade intelectual. “Historicamente, a propriedade intelectual é uma novidade, que surgiu na legislação dos anos 90. É uma imposição contraditória aos próprios fins”, diz. Em sua opinião, esse regime serve apenas para gerar royalties às empresas e acaba reduzindo o incentivo à inovação. Quando é necessário pagar pelo uso de uma determinada tecnologia, não há muito interesse em se desenvolver novas tecnologias. “Esse é um modelo de criação artificial de escassez que o monopólio produz”. Ele defende a livre extensão da inovação, da mesma forma que acontece com os softwares livres, os ensaios, as novelas e os próprios medicamentos genéricos.
Se essas idéias, num primeiro momento, podem levar a questionamentos quanto à dificuldade de se gerar dinheiro ou obter financiamentos a partir das redes distribuídas, Ugarte diz que o futuro do sistema financeiro é o investimento em redes.
Ainda é preciso criar mecanismos que possibilitem esses financiamentos, como o compartilhamento dos riscos entre os integrantes de uma rede distribuída e a inserção do conceito de capital social nos planos de negócios.
Para se pensar mais a respeito do assunto, um nodo da Escola de Redes – que já existe em Madri – foi lançado em Curitiba. Trata-se de uma iniciativa internacional que pretende reunir conteúdos em vários idiomas, de modo a conectar pessoas e trocar conhecimentos e inovações sobre redes sociais, sem hierarquias. Também é possível ter acesso aos blogs das pessoas que fazem parte da Escola de Redes a partir da tecnologia feevy, que atualiza os links e chamadas dos blogs, no site, automaticamente.
Entre 4 e 6 de dezembro deve haver um encontro internacional de redes sociais, também em Curitiba, para ampliar as discussões.
Leia também:
Redes sociais para a sustentabilidade
A conferência Redes Sociais e Sustentabilidade, que aconteceu no dia 20 de junho, após o término do Global Forum América Latina, contou com a presença do economista David de Ugarte, integrante da Sociedad de las Indias Eletrónicas – consultoria especializada em redes sociais –, e do físico e cientista político Augusto de Franco.
Os especialistas falaram sobre a importância de nos organizarmos em rede se quisermos alcançar o desenvolvimento – considerado por eles como sinônimo de sustentabilidade.
Augusto de Franco começou afirmando que tudo o que é sustentável possui a estrutura de redes. A premissa para que um sistema sobreviva é a sua capacidade de conservar as adaptações que faz. Ele também acredita que não é à toa que a idéia de sustentabilidade tenha sido inicialmente relacionada ao aspecto ambiental, já que os grandes exemplos bem sucedidos de sustentabilidade estão na natureza.
Mas David de Ugarte alerta que o discurso sobre sustentabilidade com informações alarmistas sobre a escassez de recursos naturais se disseminou de maneira estratégica, nos anos 90, para justificar a política protecionista e as altas barreiras alfandegárias européias e norte-americanas a produtos brasileiros, chineses e de outras economias emergentes. Segundo ele, tratava-se de difundir para a opinião pública “o perigo do desenvolvimento do terceiro mundo”.
Nosso desafio atual é ampliar a dimensão da sustentabilidade para as esferas social e econômica. David de Ugarte defende que a relação entre a humanidade e o meio ambiente é uma projeção do tipo de relação que existe entre as pessoas. Por isso, a sustentabilidade deve ir além da preservação de matérias-primas e se tornar o objetivo dos indivíduos e das organizações, de modo que haja liberdade e democracia em todo lugar.
“Não adianta salvar o meio-ambiente natural, se não salvarmos o social”, diz Augusto de Franco. Ele argumenta que a biosfera tem sua própria capacidade reguladora e já está se virando para se salvar. Assim, o ser humano – que não é uma parte significativa do ponto de vista da biologia da evolução – é que está em risco.
Ao falar sobre a necessidade de preservarmos nossa existência, Augusto provocou: “Devemos encarar a vida como um valor principal, mas não como o único. Para os humanos sobreviverem fazemos qualquer negócio? Precisamos nos adaptar às mudanças sem perder o que construímos: a sociedade, as comunidades, o voluntariado, a cooperação, o agir gratuitamente. Somos humanos e humanizantes do planeta. Eu não gostaria de viver num mundo onde esses valores não existissem”.
David afirma que é impensável falar em sustentabilidade em países não democráticos, assim como em modelos de sociedade patriarcais e machistas. O sistema educacional atual não pode ser chamado de sustentável, tampouco o sistema energético, independentemente das matérias primas utilizadas, pois ainda não está a serviço do desenvolvimento da sociedade.
As empresas, normalmente monárquicas, também vão precisar alterar suas estruturas se quiserem ser sustentáveis. Uma empresa sustentável, para David de Ugarte, é aquela capaz de criar um âmbito deliberativo e democrático em seu interior. “A história da humanidade é marcada pela luta contra os nodos centralizadores, que são um peso para a sociedade e acabam caindo. Precisamos entender que os nodos não podem ser insubstituíveis. Tudo o que gera dependência é insustentável”.
Augusto de Franco diz que as empresas estão começando a entender que as formas verticais não funcionam bem e que o capital social – a relação entre os membros das organizações e a troca de informações entre eles – é um grande gerador de inovação e produtividade.
Além disso, há que se pensar nas organizações como promotoras do desenvolvimento não apenas interno, mas também de seus stakeholders. “A empresa do futuro não será produtiva de forma isolada. Ela será uma comunidade de negócios na rede dos seus stakeholders e não será capaz de se adaptar às mudanças se não tiver conexões com o ambiente social e econômico onde está inserida”, diz Augusto. Promover o voluntariado e possuir uma causa que vá além do lucro também serão pré-requisitos básicos.
Ugarte acredita que, nos anos 90, dois processos começaram a romper a perspectiva de centralização e promover a articulação em redes: o avanço da internet e o surgimento das novas democracias do leste europeu, de Taiwan e da Coréia do Sul, que adquiriram conhecimento e uma enorme capacidade exportadora. O que lhes confere, atualmente, níveis de desenvolvimento humano iguais ao da Espanha e superiores aos da Grécia e de Portugal.
Ele conta que quando se pensou a internet e a própria arquitetura da rede, havia três possibilidades para construí-la:
Rede centralizada – com um nodo central, todas as ramificações dependeriam dele. Se esse nodo caísse, toda a rede ficaria comprometida.
Rede descentralizada – mesmo que o modelo parecesse mais eficiente que o primeiro, com vários nodos centralizando partes da rede, ainda não se tratava de uma solução interessante, já que cada parte continuaria dependendo de seu nodo central.
Rede distribuída – sem nodos centrais, e com os pontos se ligando diretamente uns aos outros, se um deles cai, a informação pode chegar através de outros pontos e não há prejuízo para o sistema.
A organização em redes distribuídas também não combina com monopólio – seja de tecnologias ou de informações. Por esse motivo, David de Ugarte se posiciona contra o regime de propriedade intelectual. “Historicamente, a propriedade intelectual é uma novidade, que surgiu na legislação dos anos 90. É uma imposição contraditória aos próprios fins”, diz. Em sua opinião, esse regime serve apenas para gerar royalties às empresas e acaba reduzindo o incentivo à inovação. Quando é necessário pagar pelo uso de uma determinada tecnologia, não há muito interesse em se desenvolver novas tecnologias. “Esse é um modelo de criação artificial de escassez que o monopólio produz”. Ele defende a livre extensão da inovação, da mesma forma que acontece com os softwares livres, os ensaios, as novelas e os próprios medicamentos genéricos.
Se essas idéias, num primeiro momento, podem levar a questionamentos quanto à dificuldade de se gerar dinheiro ou obter financiamentos a partir das redes distribuídas, Ugarte diz que o futuro do sistema financeiro é o investimento em redes.
Ainda é preciso criar mecanismos que possibilitem esses financiamentos, como o compartilhamento dos riscos entre os integrantes de uma rede distribuída e a inserção do conceito de capital social nos planos de negócios.
Para se pensar mais a respeito do assunto, um nodo da Escola de Redes – que já existe em Madri – foi lançado em Curitiba. Trata-se de uma iniciativa internacional que pretende reunir conteúdos em vários idiomas, de modo a conectar pessoas e trocar conhecimentos e inovações sobre redes sociais, sem hierarquias. Também é possível ter acesso aos blogs das pessoas que fazem parte da Escola de Redes a partir da tecnologia feevy, que atualiza os links e chamadas dos blogs, no site, automaticamente.
Entre 4 e 6 de dezembro deve haver um encontro internacional de redes sociais, também em Curitiba, para ampliar as discussões.
Leia também:
Redes sociais para a sustentabilidade