Em resposta à repórter Afra Balazina, a empresa disse o seguinte: “Somente em áreas protegidas, considerando florestas nativas próprias e florestas produtivas, a Vale possui um estoque já fixado de 677,5 milhões de toneladas de CO2, o que corresponde à emissão de 312 usinas termelétricas iguais à de Barcarena”.
Sim, parabéns, mas afinal: essa empresa prioriza ou não prioriza a sustentabilidade? Essa palavra ainda tão obscura não pode ser, como já escrevi aqui, traduzida num cálculo de carbono. Não importa se a termelétrica de Bacarena é só uma agulha no palheiro. Não se trata de saldo, não se trata de sacrifícios ou investimentos pontuais, trata-se da identidade da empresa. Trata-se um princípio norteador que só faz sentido quando é incorporado como filosofia e que, em nome da coerência e da credibilidade, deveria ser praticado sempre que possível. Por que não consideraram uma parceria com SFB? O compromisso da Vale vai só até 677,5 milhões de toneladas de estoque de carbono? A partir daí “vale” o inverso?
Muito mais importante que poupar as 2,2 milhões de toneladas de carbono/ano emitidas pela nova termelétrica seria uma empresa desse envergadura passar a mensagem certa no mercado: cada atitude conta numa nova cultura de negócios.
Estou usando a Vale como exemplo, mas é óbvio que a empresa não está sozinha nesse mercado de perfis contraditórios. Fico aqui sonhando com o dia em que indivíduos e empresas entenderão que a sustentabilidade só faz sentido se for encampada como causa e que a inovação não se mede por toneladas, mas com postura. O dia em que a questão da sustentabilidade será a ancestral “ser ou não ser”. E sem coluna do meio.
Esse tipo de estratégia, conhecida também como ecossabotagem, é praticada há décadas por diferentes grupos e em nome de várias bandeiras. Algumas ações são pacíficas, outras mais agressivas, mas só recentemente a intersecção entre militância e terrorismo começou a ser considerada. Até que ponto a ecossabotagem pode ser considerada legítima?
O estopim para que eu postasse aqui sobre esse assunto veio da colunista Regina Scharf, que resolveu lançar essa discussão na Página 22. Foi aí que eu descobri que, em setembro, seis ativistas do Greenpeace foram absolvidos na justiça britânica por terem invadido e pichado uma termelétrica de carvão. O juiz entendeu que o dano à propriedade privada é perdoável quando visa chamar atenção para um dano maior - nesse caso, o aquecimento global. O caso conhecido como Kingsnorth Trial agitou a opinião pública. Há quem tenha ficado extasiado com o apelo da causa ambientalista e há quem tenha anunciado o começo de uma era de anarquia no Reino Unido.
Não tenho uma opinião formada sobre esse assunto, acho a polêmica mais interessante. Mas não pude deixar que notar que não há grande diferença entre o que fizeram os seis bravos do Greenpeace o que faz o Movimento para a Emancipação do Delta do Niger (MEND), na Nigéria. Só que esse último é considerado terrorista mesmo, sem perdão.
Há décadas a Shell vem sendo acusada por entidades ambientalistas de negligenciar vazamentos de petróleo no rio Niger. Eu mesma assistia a um documentário sobre o assunto e fiquei enojada de ver crianças tendo que beber uma água oleosa e adultos tentando pescar em volta de oleodutos vazando sobre um rio já preto de tanta poluição. O MEND é o grupo guerrilheiro que (literalmente) detona as instalações da Shell sempre que pode.
É interessante como uma coisa tão alarmante como terrorismo pode ser também uma questão de ponto de vista. Pode ser o ponto de vista da civilizadíssima Inglaterra, onde a própria família real ajudou a fundar uma das mais importantes organizações ambientalistas do mundo, o WWF, ou o ponto de vista da sofrida África, onde guerrilha é sempre guerrilha.
* GlobalIncidenteMap - é ver pra crer, mas não se pode mais conhecer os incidentes em detalhes porque o serviço agora é cobrado (quem é que topa pagar por isso??)
Bite Back - neste site obscuro, sediado na Flórida, ativistas anônimos pelos direitos dos animais relatam suas sabotagens contra redes de lanchonetes, empresas farmacêuticas e por aí vai. É bem hard core...
Não sei se eu estou mergulhada demais nesse assunto a ponto de comprometer a minha perspectiva, mas eu esperava uma repercussão muito maior. Esperava desmentidos ou confirmações do Planalto e do Ministério das Relações Exteriores. Esperava empresários e industriais comentando a possibilidade de metas restritivas por setor da economia. Reclamando, até. Seria natural. Esperava pelo menos as manifestações dos ambientalistas destacados no País. Nada. Nenhuma linha.
Só posso concluir das duas uma: ou a credibilidade do ministro Minc anda muito em baixa, a ponto de ninguém mais levá-lo a sério (nos bastidores, ele é chamado de “Carlos Mídia”), ou a sociedade brasileira de um modo geral, juntamente com a imprensa que a representa, não dá pelota para esse assunto. A entrevista foi dada ao jornal Valor Econômico (não posso linkar aqui porque o conteúdo é só para assinantes. E eu nem assinante sou). O restante da imprensa calou.
Às vezes acho que vivo num mundo paralelo. Tanta coisa rolando... O Global Carbon Project (rede internacional de cientistas) afirma em estudo que os países em desenvolvimento somados poluem mais que os ricos juntos. A próxima Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP), na Polônia, em dezembro, pretende buscar as primeiras definições do período pós-Kyoto, o que inclui definir que parte caberá à periferia global nessa história toda. E por aqui o governo corre para aprovar alguma política de clima, para ter o que apresentar.
Tudo esse momento de definição tem desdobramentos diretos na vida do brasileiros, no mínimo porque diz respeito à mesma economia globalizada que hoje agoniza com a crise financeira e apavora todo mundo. Mas não ressoa como deveria. E não sei explicar o motivo...