Eco Balaio
19/11/2008 às 15:40
Eu fico pensando aqui... Será que é exigir demais que uma empresa pretensamente antenada com a agenda da sustentabilidade o seja em todas as nuances de todas as suas ações? A super mineradora Vale, com um histórico tomado de controvérsias socioambientais, vem investindo milhões em reflorestamento e relacionamento com comunidades afetadas. No mês passado, a Vale se tornou a primeira empresa brasileira a figurar entre as 50 melhores respostas do mundo no Carbon Disclosure Project, uma iniciativa altamente conceituada que visa medir o comprometimento das empresas com a redução as emissões de carbono e com a transparência de suas ações.

Mas parece que a boa imagem lhes dá cobertura para escorregar aqui e ali.  A Vale acaba de licenciar uma termelétrica em Bacarena (PA) para abastecer o pólo siderúrgico de Carajás, segundo reportagem da Folha. E Vai usar carvão mineral, sujeira das sujeiras, importado da Colômbia. Provocou ainda um banho de água fria nas intenções do Serviço Florestal Brasileiro que planejava investir em reflorestamento de áreas degradadas naquela região com eucaliptos, de modo a abastecer o pólo siderúrgico com carvão vegetal. É bem menos poluente e, melhor ainda, legalizado, o que faz uma tremenda diferença para combater o avanço sobre a floresta nativa.

Em resposta à repórter Afra Balazina, a empresa disse o seguinte: “Somente em áreas protegidas, considerando florestas nativas próprias e florestas produtivas, a Vale possui um estoque já fixado de 677,5 milhões de toneladas de CO2, o que corresponde à emissão de 312 usinas termelétricas iguais à de Barcarena”.

Sim, parabéns, mas afinal: essa empresa prioriza ou não prioriza a sustentabilidade? Essa palavra ainda tão obscura não pode ser, como já escrevi aqui, traduzida num cálculo de carbono. Não importa se a termelétrica de Bacarena é só uma agulha no palheiro. Não se trata de saldo, não se trata de sacrifícios ou investimentos pontuais, trata-se da identidade da empresa. Trata-se um princípio norteador que só faz sentido quando é incorporado como filosofia e que, em nome da coerência e da credibilidade, deveria ser praticado sempre que possível. Por que não consideraram uma parceria com SFB? O compromisso da Vale vai só até 677,5 milhões de toneladas de estoque de carbono? A partir daí “vale” o inverso?

Muito mais importante que poupar as 2,2 milhões de toneladas de carbono/ano emitidas pela nova termelétrica seria uma empresa desse envergadura passar a mensagem certa no mercado: cada atitude conta numa nova cultura de negócios.  

Estou usando a Vale como exemplo, mas é óbvio que a empresa não está sozinha nesse mercado de perfis contraditórios. Fico aqui sonhando com o dia em que indivíduos e empresas entenderão que a sustentabilidade só faz sentido se for encampada como causa e que a inovação não se mede por toneladas, mas com postura. O dia em que a questão da sustentabilidade será a ancestral “ser ou não ser”. E sem coluna do meio.



12/11/2008 às 17:26
Faz tempo que eu queria fazer um post sobre o que descobri no GlobalIncidentMap*, o site-cúmulo-da-neurose que registra, em tempo real, as ações consideradas como terroristas no mundo todo. A iniciativa já é pitoresca, mas fiquei ainda mais impressionada ao notar que os ativistas do Greenpeace são figuras carimbadas ali. Cada uma das célebres desventuras do grupo, como impedir navios de zarpar, bloquear pontes e astear bandeiras em monumentos é devidamente registrada no mapa do terror.

Esse tipo de estratégia, conhecida também como ecossabotagem, é praticada há décadas por diferentes grupos e em nome de várias bandeiras. Algumas ações são pacíficas, outras mais agressivas, mas só recentemente a intersecção entre militância e terrorismo começou a ser considerada. Até que ponto a ecossabotagem pode ser considerada legítima?

O estopim para que eu postasse aqui sobre esse assunto veio da colunista Regina Scharf, que resolveu lançar essa discussão na Página 22. Foi aí que eu descobri que, em setembro, seis ativistas do Greenpeace foram absolvidos na justiça britânica por terem invadido e pichado uma termelétrica de carvão. O juiz entendeu que o dano à propriedade privada é perdoável quando visa chamar atenção para um dano maior - nesse caso, o aquecimento global. O caso conhecido como Kingsnorth Trial agitou a opinião pública. Há quem tenha ficado extasiado com o apelo da causa ambientalista e há quem tenha anunciado o começo de uma era de anarquia no Reino Unido.

Não tenho uma opinião formada sobre esse assunto, acho a polêmica mais interessante. Mas não pude deixar que notar que não há grande diferença entre o que fizeram os seis bravos do Greenpeace o que faz o Movimento para a Emancipação do Delta do Niger (MEND), na Nigéria. Só que esse último é considerado terrorista mesmo, sem perdão.

Há décadas a Shell vem sendo acusada por entidades ambientalistas de negligenciar vazamentos de petróleo no rio Niger. Eu mesma assistia a um documentário sobre o assunto e fiquei enojada de ver crianças tendo que beber uma água oleosa e adultos tentando pescar em volta de oleodutos vazando sobre um rio já preto de tanta poluição. O MEND é o grupo guerrilheiro que (literalmente) detona as instalações da Shell sempre que pode.

É interessante como uma coisa tão alarmante como terrorismo pode ser também uma questão de ponto de vista. Pode ser o ponto de vista da civilizadíssima Inglaterra, onde a própria família real ajudou a fundar uma das mais importantes organizações ambientalistas do mundo, o WWF, ou o ponto de vista da sofrida África, onde guerrilha é sempre guerrilha.

* GlobalIncidenteMap - é ver pra crer, mas não se pode mais conhecer os incidentes em detalhes porque o serviço agora é cobrado (quem é que topa pagar por isso??)

Bite Back - neste site obscuro, sediado na Flórida, ativistas anônimos pelos direitos dos animais relatam suas sabotagens contra redes de lanchonetes, empresas farmacêuticas e por aí vai. É bem hard core...



05/11/2008 às 16:08
Eis que em meio aos quentes debates da consulta pública do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, o ministro Minc lançou uma inesperada carta na manga: o Brasil poderia se comprometer a reduzir “algo em torno” de 10% a 20% de suas emissões de gases de efeito estufa até 2020. E disse mais: já teria convencido o Itamaraty e até o presidente Lula a rever uma posição que desde a memorável Rio92 se mantém inflexível –a de que aquecimento global é responsabilidade dos países ricos, que poluíram mais ao longo da história e têm mais dinheiro para tratar do assunto. Aos da periferia mundial, caberia fazer alguns ajustes, desde que subsidiados pelos ricos. No mais, restaria apenas crescer e crescer. Às custas da atmosfera, se necessário.

Não sei se eu estou mergulhada demais nesse assunto a ponto de comprometer a minha perspectiva, mas eu esperava uma repercussão muito maior. Esperava desmentidos ou confirmações do Planalto e do Ministério das Relações Exteriores. Esperava empresários e industriais comentando a possibilidade de metas restritivas por setor da economia. Reclamando, até. Seria natural. Esperava pelo menos as manifestações dos ambientalistas destacados no País. Nada. Nenhuma linha.

Só posso concluir das duas uma: ou a credibilidade do ministro Minc anda muito em baixa, a ponto de ninguém mais levá-lo a sério (nos bastidores, ele é chamado de “Carlos Mídia”), ou a sociedade brasileira de um modo geral, juntamente com a imprensa que a representa, não dá pelota para esse assunto. A entrevista foi dada ao jornal Valor Econômico (não posso linkar aqui porque o conteúdo é só para assinantes. E eu nem assinante sou). O restante da imprensa calou.

Às vezes acho que vivo num mundo paralelo. Tanta coisa rolando... O Global Carbon Project (rede internacional de cientistas) afirma em estudo que os países em desenvolvimento somados poluem mais que os ricos juntos. A próxima Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP), na Polônia, em dezembro, pretende buscar as primeiras definições do período pós-Kyoto, o que inclui definir que parte caberá à periferia global nessa história toda. E por aqui o governo corre para aprovar alguma política de clima, para ter o que apresentar.

Tudo esse momento de definição tem desdobramentos diretos na vida do brasileiros, no mínimo porque diz respeito à mesma economia globalizada que hoje agoniza com a crise financeira e apavora todo mundo. Mas não ressoa como deveria. E não sei explicar o motivo...



Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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