Pintou um casamento ou formatura, é só ir até lá fazer uma busca, provar, ajustar se necessário, usar na festa, lavar e devolver onde encontrou. Simples, não? E racional também. Eu diria que é até um outro jeito de encarar o ato de se vestir. Um jeito que transcende a moda e faz bonito no espelho, na alma e no meio ambiente.
Para muita gente, especialmente as mulheres que têm irmãs, isso até é uma prática comum. Quem é que nunca xeretou no guarda-roupa da irmã à procura de uma peça diferente? Mesmo depois de anos e anos morando em casas diferentes, vez ou outra encontro uma roupa da minha irmã no meu armário ou a vejo usando uma bolsa minha...
Pois não há nada mais ecológico do que compartilhar. E isso vale para quase tudo, de roupas a eletrodomésticos. Outro dia precisei de um liquidificador. Bati na casa da dona Mira, minha vizinha, e pedi o dela emprestado. Usei por dois minutos, lavei e devolvi igualzinho. E isso na vila onde moro já aconteceu outras inúmeras vezes. Martelo, furadeira, batedeira são os nômades do pedaço. Circulam de casa em casa servindo a todos que precisam de seus serviços.
Em comunidades mais organizadas, como as cohousings, que já foram tema de vários posts por aqui, dividir significa consumir menos, aproveitar mais e praticar a solidariedade. Algumas aprenderam a compartilhar a lavanderia. Cinco famílias e uma só máquina resolvem toda a demanda. Afinal, quem é que usa a lavadora todo dia?? Aliás, se alguém ainda faz isso, socorro! Outras comunidades fazem escala para usar o carro, outras ainda montam uma oficina com ferramentas para cuidar do jardim (alguém aí usa cortador de grama todo dia?), bicicletário, sala de brinquedos, sala de tv e até refeitórios mais equipados.
Moral da história: quem tem amigos não precisa comprar de tudo para usufruir tudo. Basta emprestar, dividir, compartilhar. Tem livros sobrando em casa e falta lugar para guardá-los? Que tal montar uma biblioteca no seu condomínio ou no escritório? Sua coleção de discos de MPB não cabe mais na sua sala? Talvez uma sala de música seja mais bem-vinda no seu prédio do que aquele salão de jogos que ninguém freqüenta... Mais alguma idéia?
Para saber mais:
Separei dois posts mais antigos, que tratam de temas semelhantes. Aproveite!
Guarda-roupa coletivo espanta o frio
http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/20070731_lst_assuntos.shtml
Dividir a lavanderia com o vizinho?!?
http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/20071009_lst_assuntos.shtml
Foi pensando nessas coisas que descobri o fenômeno da ecoansiedade. A nova síndrome vem se alastrando nos Estados Unidos, entre os ambientalistas atormentados com sua própria pegada ecológica e os rumos da civilização (joga no Google "eco-anxiety"). A eco-terapeuta Sarah Edwards fez até um blog especializado em discutir o tema.
Como jornalista, esse fenômeno me provoca uma preocupação ainda maior: se tem tanta gente doida, deprimida e ansiosa por causa da crise ambiental, será que não estamos falhando na maneira de comunicar a cultura da sustentabilidade? Será que as campanhas socioambientais, com suas mensagens de fim de mundo e danação eterna para aqueles que consomem inescrupulosamente os recursos naturais, estimulam realmente a mudança de comportamento?
E já que estamos falando de tormentos psíquicos, decidi consultar psicólogos e psiquiatras para iluminar essa discussão. Eis um pouco do que me fizeram enxergar:
- A idéia de "perda do mundo" remete à própria morte. Já repararam como ninguém gosta de falar de morte? Na nossa cultura, os doentes e os moribundos costumam ser afastados do convívio social, exatamente por causa desse mal-estar. Conclusão: associar a mensagem socioambiental ao catastrofismo pode ter o efeito inverso ao desejado, ou seja, pode levar o tema ao mesmo status de tabu da morte humana.
- Lembram das campanhas anti-drogas em que reinava o bordão "A droga mata!"? Pois é. Não funcionou. Isso porque o usuário de drogas sabe que ele usa e não morre. Da mesma maneira, uma pessoa que não recicla não sente e nem vê o mundo se deteriorando ao seu redor. Conclusão: dá mais trabalho, mas é muito mais eficiente educar as pessoas do que tentar convencê-las simplesmente.
- O cérebro humano está programado para economizar energia. É por isso que a gente cria hábitos. No modo "piloto automático" o cérebro economiza energia, portanto, toda mudança de hábitos gera um desgaste mental. Conclusão: reformular comportamentos (como deixar o carro na garagem, por exemplo) já é um estresse. Agora, tentar incentivar as pessoas a fazer isso com mensagens ainda mais estressantes é um tiro que sai pela culatra.
Acho que todos esses insights rendem uma boa discussão para os comunicadores. Talvez o caminho seja encontrar maneiras de inspirar, emocionar e motivar as pessoas. E não aterrorizá-las.
Agradecimentos à Dra. Ana Paula Lopes Carvalho e à Dra. Marisa Verdade que participaram desse toró de parpite.
Leia também no blog do Planeta na Super:
O estresse de ser verde