05/09/2008
Caçadores de orquídeas
Se você é do tipo que só reclama da sua cidade, especialmente de São Paulo, mas não mexe um músculo para mudar nada ao seu redor, então, preste atenção nesta história. Era uma vez a síndica de um prédio que instalou a coleta seletiva para os moradores.

Ao reparar no que as pessoas jogavam fora, ela descobriu que os impacientes paulistanos estavam se livrando de orquídeas! Pois é, todos que ganhavam a planta de presente, ao ver que ela perdia suas flores depois de um tempo, pensavam que ela estava morta. Não sabiam que, depois de um ano, a orquídea dá lindas flores novamente.

A síndica - Adriana Irigoyen – resolveu, então, pegar todas orquídeas descartadas e replantá-las nas árvores da rua onde mora, no Jardim Europa. Encontrou no vizinho do prédio ao lado, o advogado Paulo Visani Rossi, e em Mário Bertinatto, engenheiro agrônomo que também mora em seu prédio, ótimos aliados para esta empreitada. Juntos, os três passaram a cultivar plantas e amigos.

Amigos, sim, porque o plantio das orquídeas trouxe mais do que um pouco de verde para a rua. “Desenvolvemos um senso de comunidade muito forte no quarteirão. Hoje, chamo os policiais da rua pelo nome, os vizinhos se conhecem, levam os cachorros para passear juntos, nem parece que estamos numa cidade anônima como São Paulo”, comenta Adriana.

Nascida na Argentina, ela mora há 15 anos no Brasil. Há três em São Paulo. Como arquiteta que é, acredita que a natureza e a arquitetura não podem ser vistas como coisas diferentes.

Adriana sabe que a sua iniciativa pode ajudar a mudar muito “a cara” da cidade. Ela sabe que os problemas da metrópole vão muito além da falta de verde e passam pela falta de cidadania mesmo, mas acredita que, se cada um fizer a sua parte, as mudanças serão visíveis e tangíveis. “Eu não posso resolver o problema do trânsito, mas eu posso deixar o meu carro na garagem e andar a pé, e posso deixar o bairro um pouco mais verde”, diz.

Hoje, uma empresa que organiza festas, no bairro onde mora Adriana, doa flores que foram descartadas – às vezes por defeitos mínimos – para que sejam replantadas por estes “caçadores de orquídeas”. As plantas usam as árvores apenas como suporte, sem danificá-las, pois não são parasitas.

Esta semana, eles estão comemorando uma vitória: depois de seis meses de projeto, o nascimento da primeira flor em uma das orquídeas que poderia estar num lixão.

Fica a mensagem: até no lixo há quem encontre vida e flores.

04/09/2008
Bicicletas públicas
Hamburgo logo terá um sistema de empréstimo de bicicletas de uso público. De acordo com o projeto apresentado na última quinta-feira a um grupo de técnicos e políticos (e a mim, que também estava lá de moletom e barba por fazer, entre um monte de gente chique em traje social), mil bicicletas poderão ser encontradas em 60 estações localizadas no centrão da cidade a partir de abril do ano que vem. Nos doze meses seguintes, outros 500 veículos serão adquiridos e mais 70 estações serão construídas nos bairros que circundam o centro. O projeto ainda não está finalizado, mas se enquadra na ousada meta de dobrar o número de viagens de bicicleta até 2015. Atualmente, 9% de todas as viagens são realizadas sobre duas rodas e sem motor.

O que será feito em Hamburgo, entretanto, não é nada original. A cidade está simplesmente copiando o que já existe em Viena, Paris, Lyon, Bruxelas, Luxemburgo, Barcelona, Copenhague, Oslo, entre outras cidades européias. Na verdade, a idéia de colocar bicicletas à disposição de moradores e turistas de uma cidade é velha. Em Amsterdã, um grupo anarquista ficou famoso em espalhar pelas ruas bicicletas pintadas de branco para o uso público. A idéia não foi muito adiante, porque aos poucos elas foram desaparecendo. Em Copenhague, pegar uma bicicleta não exige cadastro nenhum. Mas ai de quem for flagrado com a bicicleta fora do centro da cidade!

Em maio de 2005, Lyon, na França, inaugurou um serviço de empréstimo de bicicletas. O usuário se cadastra por uma semana ou por um ano por um preço módico (1 euro ou 5 euros, respectivamente). Os cadastrados podem usar a bicicleta por meia hora e devolvê-la em um dos estacionamentos sem pagar nada a mais. Paga apenas quem passa de meia hora -- que, na verdade, é tempo suficiente para um belo deslocamento na cidade da impressionante Place Bellecour. O marketing é outra característica essencial: as bicicletas, as estações, os painéis de informação e o site seguem uma identidade visual marcante e o sistema tem um nome genial (VéloV). Com isso, Lyon se apresenta ao mundo como uma cidade sustentável e persegue o objetivo de reduzir em 10% as viagens feitas de carro.

O sistema de Lyon virou paradigma para diversas cidades. Paris foi na cola do sucesso de Lyon e hoje tem um sistema de aluguel de bicicletas à altura da metrópole. Em julho do ano passado, Paris inaugurou o Vélib -- outro nome muito bom -- com mais de 10.000 bicicletas a serem pegas ou devolvidas em 750 estações. A cidade não parou por aí. Hoje em dia, são 20.600 bicicletas e 1.451 estações. Por isso, quase todo mundo que pensa em bicicleta como meio público de transporte pensa na capital francesa. Acho que só a prefeitura de São Paulo ainda não pensou bem nisso. Mas o Metrô pensou.

Anteontem, a Companhia do Metropolitano anunciou que oferecerá bicicletas públicas em estações das linhas 1 e 3. Não será nada em grande escala. 80 bicicletas a mais em uma cidade de 11 milhões de habitantes não se produzirão nenhum grande impacto na forma como a maioria das pessoas se locomove. Mas, ainda que tímido, já é um começo. É um esforço que se soma ao feito, no início do ano, por uma parceria entre uma companhia de seguros e uma rede de estacionamentos. E é também a confirmação de que a Prefeitura de São Paulo poderia fazer muito mais por uma cidade mais saudável.
02/09/2008
Dividir para ter mais
Dia desses um amigo me contou sobre uma ecovila (em algum lugar do planeta perdido na minha memória) que adotou uma prática muito interessante. Sabe aquelas roupas de festa que a gente compra, paga caro, usa só uma vez e depois deixa encostadas no armário por anos? Pois é, o pessoal dessa comunidade resolveu mudar essa história e criou um armário coletivo, uma espécie de closet com roupas e acessórios de todo mundo da comunidade.

Pintou um casamento ou formatura, é só ir até lá fazer uma busca, provar, ajustar se necessário, usar na festa, lavar e devolver onde encontrou. Simples, não? E racional também. Eu diria que é até um outro jeito de encarar o ato de se vestir. Um jeito que transcende a moda e faz bonito no espelho, na alma e no meio ambiente.

Para muita gente, especialmente as mulheres que têm irmãs, isso até é uma prática comum. Quem é que nunca xeretou no guarda-roupa da irmã à procura de uma peça diferente? Mesmo depois de anos e anos morando em casas diferentes, vez ou outra encontro uma roupa da minha irmã no meu armário ou a vejo usando uma bolsa minha...

Pois não há nada mais ecológico do que compartilhar. E isso vale para quase tudo, de roupas a eletrodomésticos. Outro dia precisei de um liquidificador. Bati na casa da dona Mira, minha vizinha, e pedi o dela emprestado. Usei por dois minutos, lavei e devolvi igualzinho. E isso na vila onde moro já aconteceu outras inúmeras vezes. Martelo, furadeira, batedeira são os nômades do pedaço. Circulam de casa em casa servindo a todos que precisam de seus serviços.

Em comunidades mais organizadas, como as cohousings, que já foram tema de vários posts por aqui, dividir significa consumir menos, aproveitar mais e praticar a solidariedade. Algumas aprenderam a compartilhar a lavanderia. Cinco famílias e uma só máquina resolvem toda a demanda. Afinal, quem é que usa a lavadora todo dia?? Aliás, se alguém ainda faz isso, socorro! Outras comunidades fazem escala para usar o carro, outras ainda montam uma oficina com ferramentas para cuidar do jardim (alguém aí usa cortador de grama todo dia?), bicicletário, sala de brinquedos, sala de tv e até refeitórios mais equipados.

Moral da história: quem tem amigos não precisa comprar de tudo para usufruir tudo. Basta emprestar, dividir, compartilhar. Tem livros sobrando em casa e falta lugar para guardá-los? Que tal montar uma biblioteca no seu condomínio ou no escritório? Sua coleção de discos de MPB não cabe mais na sua sala? Talvez uma sala de música seja mais bem-vinda no seu prédio do que aquele salão de jogos que ninguém freqüenta... Mais alguma idéia?


Para saber mais:
Separei dois posts mais antigos, que tratam de temas semelhantes. Aproveite!

Guarda-roupa coletivo espanta o frio
http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/20070731_lst_assuntos.shtml

Dividir a lavanderia com o vizinho?!?
http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/20071009_lst_assuntos.shtml  

01/09/2008
Ecoansiedade
Outro dia, enquanto ponderávamos o impacto ambiental de nosso pedido de comida delivery durante um desses serões de trabalho, minha chefe comentou: "parece que a gente está virando mórmon".  E parece mesmo.A profusão de informações que levam o cidadão preocupado a pensar em meio ambiente em cada mínima atitude pode ser angustiante.

Foi pensando nessas coisas que descobri o fenômeno da ecoansiedade.  A nova síndrome vem se alastrando nos Estados Unidos, entre os ambientalistas atormentados com sua própria pegada ecológica e os rumos da civilização (joga no Google "eco-anxiety").  A eco-terapeuta Sarah Edwards fez até um blog especializado em discutir o tema.

Como jornalista, esse fenômeno me provoca uma preocupação ainda maior: se tem tanta gente doida, deprimida e ansiosa por causa da crise ambiental, será que não estamos falhando na maneira de comunicar a cultura da sustentabilidade?  Será que as campanhas socioambientais, com suas mensagens de fim de mundo e danação eterna para aqueles que consomem inescrupulosamente os recursos naturais, estimulam realmente a mudança de comportamento?

E já que estamos falando de tormentos psíquicos, decidi consultar psicólogos e psiquiatras para iluminar essa discussão.  Eis um pouco do que me fizeram enxergar:

- A idéia de "perda do mundo" remete à própria morte.  Já repararam como ninguém gosta de falar de morte?  Na nossa cultura, os doentes e os moribundos costumam ser afastados do convívio social, exatamente por causa desse mal-estar.  Conclusão: associar a mensagem socioambiental ao catastrofismo pode ter o efeito inverso ao desejado, ou seja, pode levar o tema ao mesmo status de tabu da morte humana.

- Lembram das campanhas anti-drogas em que reinava o bordão "A droga mata!"?  Pois é.  Não funcionou.  Isso porque o usuário de drogas sabe que ele usa e não morre.  Da mesma maneira, uma pessoa que não recicla não sente e nem vê o mundo se deteriorando ao seu redor.  Conclusão: dá mais trabalho, mas é muito mais eficiente educar as pessoas do que tentar convencê-las simplesmente.

- O cérebro humano está programado para economizar energia.  É por isso que a gente cria hábitos.  No modo "piloto automático" o cérebro economiza energia, portanto, toda mudança de hábitos gera um desgaste mental.  Conclusão: reformular comportamentos (como deixar o carro na garagem, por exemplo) já é um estresse.  Agora, tentar incentivar as pessoas a fazer isso com mensagens ainda mais estressantes é um tiro que sai pela culatra.

Acho que todos esses insights rendem uma boa discussão para os comunicadores. Talvez o caminho seja encontrar maneiras de inspirar, emocionar e motivar as pessoas. E não aterrorizá-las.

Agradecimentos à Dra. Ana Paula Lopes Carvalho e à Dra. Marisa Verdade que participaram desse toró de parpite.

Leia também no blog do Planeta na Super:
O estresse de ser verde

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